Morte, fiel amiga que ao meu lado caminha...

 

O autor por vivo que está, teme a Morte; por morto que haverá de ficar, tem receio de se submeter a um novo nascimento, pois dúvidas, tem ele, sobre a existência da eterna Morte.

 

Por que tanto tememos a morte?

Por que tanto nos assombra este único ente capaz de provocar a dissolução de um organismo vivo?

Por que tanto nos assusta a substância mais consistente que há para nos alcançar com seu aguçado alfanje?

Já de início, podemos dizer que o morrer é um ato inerente e intrinsecamente fisiológico ao indivíduo vivo, ou seja, se vivo estou, hei de morrer. Homo ex quo esse incipit in hoc corpore, in morte este — O homem começa a ser na morte no momento em que começa a ser no corpo *; e ainda, Vita ipsa cursus ad mortem est — A própria vida é uma corrida para a morte. A ser assim, e assim sempre haverá de ser, nenhuma pessoa pode no lugar de outrem, morrer, não obstante, pode alguém por outro morrer; mas, esse outro, jamais conseguirá dissuadir a morte de seu propósito; jamais conseguirá demovê-la do seu intento, com súplicas e lágrimas, ao alegar que aquele que por ele, foi morto, da sua própria morte, ele o desviou. Assim, temos consciência que, inevitavelmente, o ente humano, de per si, haveremos de assumir a nossa própria morte; portanto, por esse irrevogável enfrentamento pessoal, que teremos com a morte, já podemos afirmar que ela é o mais insondável enigma que nos espreita; é sem dúvida um mysteriem tremendum.

Dela nada sabemos, ou antes, dela temos uma certeza cristalina, qual seja ela não nos ameaça, pois para fazê-lo, não tem necessidade alguma, visto que, inexoravelmente, nos alcança; ainda, podemos dizer que dela, conhecemos o que poderia ser tomado por acidentes seus, quando na verdade, não passam de seus disfarces essenciais; entre esses, que são muitos, não mais que três, são necessários e suficientes para tanto nos aterrorizar, senão, vejamos: por vez, ela se apresenta a nós, transvestida em sua própria inelutabilidade, ou seja, contra essa senhora não há absolutamente o que fazer; não há espada que a intimide, não temos ouro suficiente para suborná-la, não dispomos de maior astúcia para ludibriá-la, por fim, não temos nenhum modo para arrostá-la. Assim, quando chegar a nossa hora para afrontá-la, de cabeça baixa, nada nos resta senão pedir a ela, que de nós, não tenha nenhuma pena, contudo, para menor angústia nossa, uma última expressão de desejo, ela pode aceitar, qual seja, que não se empene o gume de seu alfanje...

Em outros momentos, ela — a Morte — se transforma na sua própria iminência; com esse disfarce, ela nos induz a viver como se ela não existisse, ou estivesse longe de nós, ou nem mesmo nos dissesse respeito; assim enganados, vamos dissipando a nossa vida em uma infinidade de misérias... Entretanto, a Morte por ser um ente que está sempre a compor a nossa sobra, nos assombra tanto, por não se ocupar com o futuro, pois está ao nosso lado a cada dia; enfim, continuamente, a Morte à Vida da atenção, para que em dado momento, que dessa não depende, interrompe seu curso.

Finalmente, ela se metamorfoseia na sua própria inexorabilidade; e essa vestimenta que lhe envolve todo o corpo ocultando-lhe as garras, é tão singular que nem mesmo Deus possui, ou antes, a Ele não interessa nenhum disfarce... Com essa roupagem, ela jamais se move a rogos, pois o seu espectro avança contra todos os homens sem fazer acepção de pessoas, assim, ela — a Morte — a vida de ninguém, disfere, desfere, sobre a vida de quaisquer viventes, quando lhe aprouver, o seu alfanje...

Ela muito bem nos vê, embora, se faça passar por cega, para não nos distinguir e ainda mais nos iludir; contudo, sua visão nos alcança por mais que nos refugiemos da sua presença; ela — a Morte — jamais nos revela a sua face, para tanto, anda sempre de cabeça curvada para baixo, com efeito, está sempre a olhar para os seus próprios pés, logo, ela não volta seus olhos à face de ninguém, antes de desferir o seu golpe fatal, ceifando sem piedade, a vida de alguém; continuamente, assim por se mover, entendeu de nos julgar pelos nossos pés, ou antes, entendeu de nos julgar pelos nossos passos.  Eis aí a única artimanha que ela — a Morte — não conseguiu nos ocultar, qual seja a de bem sabermos que ela nos julga pelos nossos pés, ou antes, pelo nosso caminhar... Esse critério único foi determinado quando ela — a senhora da Vida — observou que nosso viver trilha um caminho tortuoso, cruento, áspero, espinhoso, repleto de armadilhas... Então, seguindo a nossa trilha, ela verificou que para cursar tão perigosa senda, carecíamos de muita cautela a cada passo antes que esse pudesse ser... E assim ela vem nos seguindo, e nos observando... Não nos arma nenhuma cilada, mas também não nos faz nenhuma advertência sobre quaisquer perigos à nossa frente; tão somente, vai observando nossos passos em falsos, inseguros e precipitados... Então, constatando-os falhos por repetidas vezes ou avaliando as nossas falhas, ainda que por consequente insipiência se dão, nos arrebata sem a mínima pena. E se tentarmos sair da trilha? Para quem não sabia, ainda que tarde, logo há de saber, que sem demora, o seu alfanje — o da Morte — sai ao nosso encalço...

Quando nosso caminhar deixa de ser firme, tornando-se inseguro, desequilibrado, nós sempre sentimos medo e temos cada vez mais receio de continuar nossa caminhada, com efeito, este temor é imposto pela morte que está a nos seguir... Está sempre atenta, jamais se movendo a rogos, incansavelmente, nos espreita... A ser assim, temos consciência que é a Morte que nos mantêm na trilha da vida, à custa de sua vigilância. É ela que, verdadeiramente, nos deixa viver... Assim, por tanto temer essa maior guardiã da vida, deixamos de entender que o viver é o maior jugo que a própria Morte nos impõe. E ainda, não bastando tão grande ardil, para nos causar menor apreensão, ela — a Morte — muita vez, nos impede até de darmos os nossos primeiros passos à Vida... Logo, com segurança, podemos dizer isto: Que sábia é a Morte! Se nos revelasse a sua face, talvez, abraçando-a, rechaçaríamos a Vida, que é a sua própria razão de ser... 

De outra forma, quando vamos seguindo nossa jornada apoiando bem nossos pés, avaliando com cautela o terreno a ser tocado, e, sobretudo, respeitando as estremas do nosso sítio, vamos ficando cada vez mais dispostos a continuar nossa trilha. E a Morte? Continua a nos seguir, entretanto, ainda que não desejasse fazê-lo, vai perdendo o ânimo para perscrutar com maior atenção os nossos passos; vai aos pouco, tomando distância de nós, quase até nos perder de vista, quando então, vai se envolvendo com os passos de outro alguém desatento que mais atenção lhe chama... E assim vamos esquecendo-a, e ela, não mais de nós, vai se lembrando; aí, vamos caminhando, caminhando... Cada vez mais tranquilos... Contudo, no final da nossa vitoriosa jornada, para surpresa nossa, a senhora do nosso ocaso,  não percebeu que para adentrar nesse último sítio, havia a via exclusiva àqueles que podem derrotá-la, assim, sem lhe restar outra alternativa, ao buscar um atalho, nos surpreendeu de braços abertos, porém, nesse momento, não mais nos causou temor o seu inevitável abraço, pois nada mais teremos além de uma pálida e fria despedida da nossa velha adversária — a Morte — que a nossa vida, pela vida afora, quis sempre aniquilar; agora, por uma nova vida, fora a Morte derrotada; assim não mais com sua tenacidade, ao nosso lado, continuará, pois, através daquela via, teremos uma nova jornada, e por essa, ela — a Morte — não mais nos seguirá...  

 

 

* — Santo Agostinho, De Civitate Dei

 

 

Ah! Se o meu heterônimo pudesse ocupar o meu lugar!

 

Ah! Se eu pudesse me livrar do meu pesado “estar a ser”, mais leve seria o fardo que subjuga o meu viver...

 

Não se chega ao fim, sem antes partir do início, logo, pelo intento que tenho de levar esta página, ou antes, esta tela ao seu epílogo, inicio com esta interrogação a mim, mas, que a outrem pode alcançar:

Quais as razões que podem levar um escritor a conceber, gerar, e dar à luz um heterônimo, para que esse se torne senhor das suas letras, as do escritor? Tantas razões há, que não conteria o desejo de julgá-las; contudo, ainda que sejam várias, nem todas poderiam por mim, ser bem compreendidas, assim, me atenho a não mais que três delas, logo, sem maior dificuldade, as citarei.

Sem mais tempo a perder, ou a ganhar, antes que eu justifique a existência dos heterônimos, tenhamos em mente que toda e qualquer pessoa, em algum momento de sua vida, poderá se ver portadora de uma doença, entre tantas que há; essa afecção evoluirá bem, esvaindo-se para sempre, ou, de forma vária, insidiosa, contudo adversa, após algumas intercorrências, ao se agravar, resultará em um prognóstico reservado, qual seja tornar-se-á sombrio e crônico, até que a morte lhe dê termo, não à afecção, mas, ao seu portador... Contudo, entre aquelas doenças, encontra-se uma sem jaça, ímpar e imparcial, pois poderá acometer, sem quaisquer distinções, quaisquer pessoas, ainda que estejam em princípio, hígidas; por ser tão singular, quando essa enfermidade, em firme idade se instala, ou seja, quando ela acomete uma pessoa que já tem consolidada a sua própria identidade, ela — a afecção — poderá encerrar em si uma doce elação, ao suscitar, logo de início,  em sua vítima, um forte desejo de se despojar de si, para em si acomodar outrem...

Antes ainda de alcançarmos aquelas razões — as que levam uma pessoa a conceber um heterônimo para si — desviemos de seu caminho natural algumas palavras, para usá-las à definição de síndrome: síndrome é o conjunto de sinais e sintomas que caracterizam uma enfermidade; a ser assim, se há alguma pessoa que queira mudar a sua própria identidade, ao criar para si um heterônimo, sem nenhum esforço imposto à mente, poderemos afirmar que por demente alguém poderá tomá-la, entretanto, se essa pessoa estiver cônscia do seu próprio siso, não criará para si, um heterônimo para atender a nenhum espúrio desígnio, tão somente o fará para que ele — o heterônimo — assuma a sua obra — a obra da pessoa que o criou — pois, heterônimo não passa de alguém, que não passa de um ente da razão destituído de quaisquer ambições próprias... O novo autor, ou antes, a criatura que haverá de ocupar o lugar do seu criador, para sustentar o seu próprio brio, brilho próprio haverá de ter, através de um perfil bem definido, que bem poderá se assemelhar ao do seu senhor, ou, do dele, muito se distanciar, ou ainda — o que menos usual não é — é o autor substituto se tornar tudo que o seu criador muito gostaria de ser. Quando essa última conjunção se dá, ou seja, quando a criatura por tão mais aprimorada que se tornou, ao tomar posse da obra do seu criador, amiúde, poderá deixá-lo com algum resquício de inveja, com efeito, um tanto ressentido por tê-la criado, poderá ele ficar...

Agora sim, cheguemos às razões que levam alguém que lida com as letras, a criar um heterônimo para si; são elas: o desejo, de início, de não ser atingido pelas críticas; se livrar do assédio dos seus leitores; por fim, pôr fim a outros incômodos menores, porém maiores em número... Depois desse relato, sem óbice, imaginamos a singularíssima conveniência que há, quando alguém cria para si um heterônimo, contudo, ainda que disponha de todos os recursos indispensáveis para levar a termo a sua gênese, se esse alguém, pudesse dotar a sua criatura com o poder da fala, fazê-lo, logo viria; e logo se veria, com muito gáudio, por esse seu ato, bem compensado, pois, poderia ouvi-la dizer:

— Fui criado à tua imagem e semelhança! Entretanto, ainda que muito semelhante ficasse, diferente haverei de ser, mas, mais me aproximarei de ti, quando puder te demonstrar com toda sinceridade que tenho, a minha gratidão; e isso farei, quando for possível, te dizer: — não só me limito a adotar a tua obra, mas, assumo também de bom grado em teu favor, dois grandes ônus que sufocam quaisquer entes humanos, quais sejam a anuência compulsória que se faz ao pagamento dos tributos e o obrigatório convívio social imposto a qualquer pessoa quando entre os seus pares se encontra; e para que o senhor e meu criador entenda bem a dimensão do meu sacrifício, sabe: esses fardos vêm sempre unidos, não se separam jamais, uma vez que, de vez, o viver de um, depende da vida do outro, a despeito de os  percebermos distintos entre si, quando nos impingem o seu peso, pois aquele aniquila o corpo, e esse subjuga a alma. Vê meu senhor! Quão mais feliz seria a criatura humana, quando não felicíssima, se pudesse dizer de si: — desci ao rés da minha resistência, subjugada por dois insustentáveis ônus, mas agora, por graça recebida, sinto que tenho força e poder para deles me livrar!

Estava a sonhar com essas palavras do meu heterônimo, quando caí à realidade para tocar nesta cruenta verdade:

A certeza que tenho, para outrem, poderá carrear dúvida, ainda assim, ouso, por todos os semelhantes meus, contudo, antes por mim, admitir: ainda que não alcançássemos aquela graça, creio que não seja possível haver ônus maiores que aqueles dois, a nos deixar mais tesos, com os seus pesos; e são tantos que não há, que se houvesse, seriam capazes de acercar as lindas da imaginação... Ainda assim, estou indeciso, não quanto a possibilidade de me livrar daqueles tributos, mas sim, quanto ao convívio social, pois falta-me evidência para contestar a sua conveniência; a ser assim, tenho certeza que pelo menos uma dúvida não deixarei de ter, e aqui, em forma de interrogação, quero mostrá-la àqueles que me leem, pois sua, ela também poderá ser.

Neste momento, por imposição deste texto, abro um primeiro parêntese, que ao se justificar, justificará um segundo, ou até outros, caso necessários sejam; ei-lo logo abaixo, queira vê-lo!

“Ao abrir parêntesis, amiúde, quebra-se o texto que julgamos falto de reparo; ao fazê-lo, zelo maior haveremos de ter, pois, muita vez, subestima-se o raciocínio de outrem, ou remenda-se o nosso próprio que fora puído”; sob esse, e não sob aquele efeito, é feito aqui, por ser necessário, um remendo. Entre estas letras, o faço pela primeira vez, mas, já o fizera antes em outros lugares e momentos; assim, caso seja imperativo, para conservar o hábito velho, de novo, em algures, fá-lo-ei. Pois bem, sem constrangimento, tolere este parêntesis que se segue, pois o faço por minha conta, logo, logo, ou desde já, estou a remendar o meu próprio raciocínio que fora trincado...

 “Há alma solitária, que assim quer ser, na esperança de evoluir por si, para em seguida, só para si se voltar, quando então, colherá sem dividir com os seus pares, os frutos da sua própria solidão?”

Se por resposta a essa indagação, há quem, sem dúvida, possa dizer que sim, todavia, para mim, com toda certeza, duvido que tal existência haja, logo insisto, ao fazer àquele alguém, mais estas duas perguntas: em algum momento, quando a tua alma estava solitária, triste tornaste? Ou tornas-te trinte só quando ao lado de outros semelhantes teus te encontras? Uma vez que, neste momento, de nenhuma pessoa entre todas que estão a ouvir as minhas palavras, nenhuma resposta ouço, ouso ainda dizer: é mais seguro e menos doloroso, que eu me resigne, pelo menos em parte, ao tolerar o convívio social, que seria insuportável, se não estivesse eu sob a égide de um heterônimo; contudo, ainda tenho um grande receio, qual seja, heterônimo é sempre desalmado, ou antes, é sempre destituído de alma própria, e para que assim não seja, alguém poderia lha emprestar; mas, convenhamos, isso não é possível que se dê, pois, nem sequer eu, que dele sou o criador, ainda que o quisesse, não poderia fazê-lo, porquanto nem da minha própria alma posso dispor... A ser assim — e que esse ser não seja para sempre — não há esperança de vida livre nem mesmo para um heterônimo, pois ainda que ele se encontre desvencilhado daqueles jugos, impedindo-o para consolidar a sua plena autonomia, há amarras que lhe tolhem algum movimento, quais sejam, aquelas que estão bem à mão do seu criador e esse podem atá-lo, em qualquer tempo e lugar; e o que é pior, este mesmo criador sentindo-se responsável pelo que criara — o seu heterônimo — sob os grilhões desse, também se encontra.

Depois desse último parágrafo, sem prejuízo à clareza do remate destes dois últimos, posso dispensar novos parêntesis, ainda que parentes bem próximos, pois são irmãos siameses — a incongruência e o paradoxo — clamam por um espaço distinto para melhor esclarecerem a conjunção incestuosa que estão a formar; pois esse casal compõe um nebuloso conluio, com a intenção se meter entre o criador e a sua criatura; e isso concluo por isto:

Muito embora aquela criatura — o heterônimo — seja virtual, goza de uma grande liberdade, porém vigiada, visto que o seu criador teve liberdade e autonomia plenas, que tanto desejara para si, para concebê-la, gestá-la, e em seguida, tão logo nascera, dominá-la; e agora, por gratidão ou por temor, ela — a criatura — se torna dependente do seu senhor, e esse por se responsabilizar por quem criara, ainda que possa destituí-la de todas as insígnias que lhe dera, não tem poder para lhe retirar das mãos, através da aplicação de tão dura pena, a pena — razão primeira de ser o seu heterônimo — pois se assim o fizesse, menor liberdade ainda teria, ao se tornar novamente, senhor único da sua própria obra; a ser assim, depois de trabalho de sobra e sem falta de frustrações, pela liberdade que buscara, o criador ouve de sua criatura:

— eu valho por mim, pois não desgastou meu físico o fisco, e não corroeram minha alma as armas dos meus semelhantes; assim, vivo na minha essência, que para adquiri-la nada fizeste, logo, de ti tenho pena, pois a pena que tenho à mão, de Outro recebi, embora, pensas que ma deu de presente...

A ser assim — e que esse ser não seja para sempre — não há esperança de vida livre nem mesmo para um heterônimo, pois ainda que ele se encontre desvencilhado daqueles jugos, impedindo-o para consolidar a sua plena autonomia, há amarras que lhe tolhem algum movimento, quais sejam, aquelas que estão bem à mão do seu criador  com as quais poderá ser atado, em qualquer tempo e lugar; e o que é pior, esse mesmo criador por se sentir responsável pelo que criara — o seu heterônimo — sob os grilhões desse, também se encontra.

  

Que lindos olhos tens...

 

Ao falarmos de hereditariedade, essencialmente, haveremos de nos apoiar em bases científicas, que nenhuma licença concedem à vaidade, e nem mesmo à gratidão.

 

A aspereza desse preâmbulo não lhe aniquila o senso de justiça! Senão, vejamos:

Em boa hora, pois debaixo da luz de um brilhante Sol, de início, consideremos isto: nossos antepassados fundaram a sociedade que hoje nos sustenta, logo, em circunstâncias que clamam por justiça, é de nossa obrigação prestar a eles algum tributo póstumo, pois pelos seus feitos no passado, o nosso presente é sustentado, e quiçá, hão de garantir o nosso futuro.

Quanto ao agradecimento pelas contribuições diretas e biológicas, que nos legaram os nossos ascendentes — aqueles que formaram a nossa árvore genealógica — se têm algum valor, encontra-se nos limites do saudosismo que se manifesta através de nossos relatados atribuídos a eles, portanto, não devem eles ultrapassar as extremas da nossa vaidade...

Se essa afirmação é áspera, suave é a sua justificada dela, pelo exposto abaixo.

A cor dos olhos que tens, não fora escolhida pelos teus pais, com a intenção de te oferecerem de presente por tão linda que é, nem tampouco, tu a pediste; tão somente, um destino amável, quando não, uma afável ocorrência, ao te voltar os seus bons olhos, aos teus, concedeu a cor que têm eles; a ser assim, por todas as cores de olhos que há, te pergunto, ou antes, afirmo-te, pois: não desejo ver de forma distinta, a cor dos teus olhos, porém, é possível que tu vejas nos meus, alguma cor, logo, a certeza que tenho sobre a cor castanha dos meus olhos, não haverá de ser menor que dúvida que desejo preservar sobre a cor dos teus, ainda assim, tenho esta convicção cristalina:

Que lindos olhos tens!

Por ser assim, vejamos juntos estas interrogações:

O que de mais verde veem no mar, os teus olhos azuis que de menos veem os meus castanhos?

Ou o que de mais azul veem no céu, os teus olhos verdes que de menos veem os meus castanhos?

Finalmente, que cor diferente podem ter os meus olhos castanhos, para que os teus os vejam melhor? 

Por essas três indagações, vejamos tu e eu, em uma única resposta o que haverá de nos convencer:

O ver a cor do Mar, o ver a cor do Céu, o ver a cor dos olhos de alguém, ou o ver quaisquer cores, não dependem da cor dos nossos olhos, dependerem tão somente da cor da nossa alma, assim sobre o que há entre as profundezas dos Mares e os limites dos Céus, não há cor de olhos que possa ver melhor em detrimento das demais outras...

Agora vejamos o que todos hão de ver: os nossos genitores, naturalmente, transportaram os genes que ao se encontrarem aleatoriamente ou por desígnio pessoal de Deus, deram aos nossos olhos, uma cor única resultante dessa tão formidável combinação. Esse exemplo reflete apenas um caráter genético que se manifesta de maneira objetiva inteiramente livre do nosso desejo e alheio à vontade de nossos pais.

De outra maneira, que na sua essência em nada difere desse parágrafo anterior, digo que entre aqueles exemplos — o dos olhos verdes, que outra cor poderiam ter — de feito, dá testemunho de fatos objetivos herdados de forma — apenas aparente — desvinculados de quaisquer regras, logo, sem nenhuma satisfação dar aos ditames matemáticos...

Com teus lindos olhos que podem ser desta ou daquela cor, vê todas as cores desta conclusão:

A consciência e compreensão da herança dos caracteres genéticos subjetivos são importantes tanto quanto o são as concebidas aos caracteres objetivos, pois, longe dos nossos olhos, aqueles não nos chamam a atenção, contudo, por serem reais e determinantes à nossa essência, hão de ter semelhante valor ao atribuído aos abjetivos. Sem nos atermos ao mérito desse fenômeno inefável, ou seja, dessa maravilhosíssima transmissão dos caracteres genéticos, ainda assim, com segurança, podemos concluir que o nosso passado importa pouco, o que mais vale é o nosso presente, pois nesse momento, temos a prerrogativa de deixarmos indeléveis nossos rastros que apagados não serão no futuro. Isto tão bem feito fizeram alguns dos nossos ascendentes, outros nem tanto...

Assim, cada um de nós pode dizer:

Por ser o ente humano que sou, ser digno de algum mérito, posso até me tornar, mas do caráter que o determinou jamais devo me orgulhar, logo, por ser esta ou aquela a cor dos meus olhos, nenhum elogio devo receber; por equivalência de raciocínio, contudo no sentido inverso, afirmo que não há quem possa me impingir nenhuma culpa pela cor dos olhos que tenho; por tudo isso, é possível com os olhos do entendimento, estender o olhar e ver que nenhum ente humano é passível de quaisquer condenações, uma vez que todo o seu patrimônio genético a ele não pertence, pois, dos seus pais, ele não o herdou, visto que esses dele não tinha posse, uma vez que, todos os genitores são meros depositários e transportadores de um grande tesouro que pertence à espécie sapiens sapiens, logo, com prudência, devemos transportá-lo, e com sabedoria, com outrem, devemos dividi-lo...

 

"T"

 

Agora sim, não tenho a menor dúvida!

Desta vez, e de vez, tornaste-te incauto.

Nesta página, há tantos títulos seguros sob teus olhos, e nenhum deles, em ti suscitou algum interesse?

Creio que não, pois, por menos cautela que estavas a ter se ater lá, quiseste mais. 

Navegavas a esmo?

Sabe! Ao ancorares em um porto desconhecido, entre os males que por lá há, podes encontrar uma ou outra causa de tenesmo...

 

 

 

 

 

Eugene Gaon, de si, pode dizer:

 

 

Se por dias inúmeros já vivi, bem distante de mim, já vai a idade que à vaidade se entregara; se outro tanto, desejasse viver, ainda que tivesse disposição para fazê-lo, zelo com o tempo para alcançar esse intento, faltar-me-ia, assim, apesar dessa realidade, a pesar a real idade que tenho, não estou, logo, ela não haverá de me incomodar, pois desistir de existir, não desejo, uma vez que por inúmeras outras vezes, ainda hei de estender minhas mãos ao bem, contudo, receio que vez ou outra, com elas, alcançarei o mau...

Após iniciar meus primeiros passos, tão logo firmes ficaram minhas mãos, iniciei-me nas primeiras letras; de lá para cá, tenho lido, lido sempre; portanto, por tanto me envolver com as palavras, alguns segredos seus descobri.

— Segredos meus?

Não! Não os seus!

— Se meus também não são, hão de ser de quem?

Delas — das palavras — naturalmente! A ser assim, saiba: as palavras não nos traem, e trair não se deixam, logo, logo, ou em todo momento, tenha cuidado ao ler quaisquer textos meus, pois, se sobre eles, fizer algum comentário, algum segredo seu revelado será...

Já disse, ao passar pelo tempo, tempo para ler encontrei, com efeito, se conheci palavras a mais, não menos as valorizei... Com isso, fui ganhando força, ao perder ânimo para desprezar as letras; nessa faina continuei até cismar planos de escrever para alguém que poderia cismar de ler o que escrevo; em consequência, alguns segredos meus, minhas letras hão de revelar...

 

Eugene K. Gaon de Assis graduou-se em Medicina e Filosofia, logo, logo mais, ou a qualquer momento, ao caminhar por essas ásperas sendas, fendas aqui e ali, poderá encontrar, mas, ao menos, com mais segurança, poderá delas se desviar...