Do ente humano doente...

 

Há pessoas que não posso matar, ou antes, outrem ninguém há, de quem a vida eu possa ceifar; mas, para me livrar do ente humano doente que enfermo quer me deixar, resta-me passar por um refém da morte, que jaz em alguma fossa esquecida...

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


Para dar descrição precisa, precisa-se de discrição!

 

Nossa empregada doméstica por anos, a nossa casa, ofereceu sua assistência profissional. Tanto tempo esteve entre nós, que sua presença nada de novo era aos mais velhos membros da nossa família. Por tão longo período nos servindo, a casa toda lhe devotávamos todo o carinho e gratidão possíveis. Em particular, por lhe dever respeito e obrigações sem limites, ainda que bem a conhecesse, informações seguras de suas pernas, fui sempre incapaz de dar... Entretanto, nos últimos tempos, as via sempre cansadas, o que natural seria, pois sempre correram; e agora, depois de tanto tempo sem descanso, correndo continuavam para alcançar nossos desejos crescentes que se multiplicavam por mais pernas novas que surgiam entre nossa família... Diante de outras - de outras pernas - a dar descrição precisa, precisa-se de discrição! A ser assim, para tal empenho, conclui que a incapacidade é menos preservada pelo respeito e mais desprezada pela anatomia que os olhos não respeitam...

Ainda que nos tomasse por família devotada e carinhosa, maior devotamento e carinho, a nossa querida empregada ofereceu à neta sua; logo, quis acompanhá-la; ao fazê-lo, mudou-se para bem longe de nós. Lastimamos muito a sua partida; partidos ficaram nossos corações - os de todos da casa - o meu, pela força do carinho, ou pela fraqueza na despedida, até chorou!

Tínhamos que arrumar outra ajudante. Este empenho fraco, por fortes razões, ficou por conta da minha esposa que deveria levá-lo a cabo... Por agir rapidamente, quase nada demorou, não mais que uma semana, para ele chegasse.

Ele? Sim! Ele chegou! Um par de novas e lindas pernas chegou à casa da nossa família; tão logo chegou, logo se firmou diante dos meus olhos, bambeando-me as pernas, que por terem mais anos vividos, mais firmeza não poderiam ter...

Imediatamente, com olhos espertos e raciocínio lento, percebi que aquelas pernas eram muito vaidosas - vaidosas por duas vezes - uma por si mesmas, que bem se justificavam à vaidade, e outra, a de possuírem também um par de nádegas dignas de poucas outras pernas para sustentá-lo... Uma delas, ou seja, uma das nádegas, a da direita, que à esquerda, se algo devida, não passava da consequente posição trans que ocupava, qual seja a de estar à direita sua, se é que seja isto suficiente para mais chamar a atenção; e para os tentos, atentos ainda mais ficarem, esta nádega - a que à direita estava -  portava continuamente, um indiscreto celular, que pouco falava e muito escutava, ou antes, sempre que muito escutava, por resposta, meias e baixas palavras dava; isto por dia, muita vez eu via acontecer, e não por menos vezes, quisera eu me envolver no diálogo, ainda que só com os ouvidos...

Nossa velha empregada, já disse, por sua partida, me deixou a maior tristeza, mas, estas novas pernas não me trouxeram menor alegria... E a alegria quase sempre, quando muito se solta, atadas junto de si, traz fantasias... Com efeito, em pouco tempo, me ocupei em criá-las em nome daquela, ou dizendo de outra forma: estas pernas, por grande alegria que me trouxeram, logo, a acalentar meus sonhos, quase nada esperaram para me entregar à insônia.

A visão das pernas para não perder, a perder o sono fui; assim, com elas, a desejar sonhar, a sonhar acordado, muita vez, ficava... Por nem sempre, me contentarem os sonhos, entre um sonho e outro, entre aquelas pernas continuava o meu pensamento, ou antes, o meu desejo... Por muito sonhar e pouco dormir, percebi, ou julguei perceber, o seu cheiro, o das pernas... Foi assim que entre o claro e o escuro, tudo que meu raciocínio turvo permitia aos meus olhos, no tocante às cores, era que vissem a cor morena das iluminadas pernas; em seguida, sem conseguir quebrar esta desatinada sequência, já não mais percebi que meu sono curto encurtara ainda mais o resto de juízo que da minha cabeça escorregara; escorregava à esperança que àquelas pernas escorregassem as minhas mãos... Neste momento, a minha esposa notou, não as intenções das minhas mãos, não a causa dos meus sonhos à luz do dia, mas, os seus claros e danosos efeitos... E que efeitos! E que tão danosos! Pois, comecei por desprezar as suas pernas - as dela - as da minha esposa...

 Finalmente, a tempo, pois, há tempo, por assim dizer, já por um grande mal esperava, qual seja preocupação e insônia crescentes trazem mal-estar; para o meu bem, este não veio antes da hora, ainda que fosse noite velha. Este incômodo acometeu-me da seguinte forma: nova fantasia abraçando-me foi cortando as asas da minha imaginação, e à medida que mais forte tornava-se o abraço, constrangida ficava a minha respiração; este sintoma a asfixiar-me em um crescendo, em pouco tempo, levar-me-ia à morte, não fosse o pedido desesperado de socorro que fiz a minha esposa, que bem ao meu lado estava:

- Afaste-se de mim! Não me toque! Falta-me o ar, estou morrendo, estou morrendo... Ela, com o seu zelo de sempre, mas, naturalmente muito assustada, prontamente se dispôs a atender-me - pois o amor não se contraria - sem demora, fazendo-me um chá que às pressas haveria de chegar, pois mo trariam as suas pernas - as da minha esposa - ainda assim, embora julgasse estar diante da morte iminente, antes de receber aquele abençoado chá, tive tempo de fazer a seguinte reflexão, ou antes, as seguintes interrogações:

Quantas vezes as pernas da minha esposa levaram-me chá à cama?

Quantas vezes as pernas da minha esposa procuram meus óculos perdidos?

Quantas vezes as pernas da minha esposa buscaram a minha toalha de banho que eu esquecera?

Quantas vezes as pernas da minha esposa foram buscar os meus chinelos?

Quantas vezes as pernas da minha esposa se levantaram à noite, por conta de nossos filhos?

Quantas vezes as pernas da minha esposa?...

Quantas vezes as pernas da minha?...

Quantas vezes as pernas?...

Quantas vezes?...

Quantas?...

Ah! Lembra-me dizer, quantas vezes as lindas pernas da minha esposa me deixaram...

Chegou o chá, o tomei e dormi.

Pela manhã, depois de bons minutos ultrapassarem o meu habitual horário de despertar, despertei-me; em seguida, vi a nossa empregada; percebi que ela bem se locomovia; andava sem nenhum embaraço. Embaraçado por ver, ou por deixar de ver, fiquei, pois, por maior esforço que fizesse, não conseguia ver as suas pernas, logo, indaguei:

Por efeito daquele chá, com outros olhos acordei?

Por não muito confiar nos chás, com dúvida e sem resposta, ainda mais indaguei:

Pode um desconforto respiratório dar à razão uma nova conformação? Inconformado com meus próprios olhos, que pareciam não ser mais meus, quis ver mais explicações:

À noite que passou, fizera a mim mesmo, aquelas interrogações?

A mim mesmo, respondi:

Se minha memória, neste momento, não se ocupa em me trair, tenho certeza que aquelas interrogações ocorreram depois que tomei o tal chá.

Considerando a possível traição da minha memória, continuei refletindo:

Por arrependimento, desejei que se afastassem de mim, as pernas da minha esposa, que por amor que não se contraria, salvando-me a vida, de mim se aproximaram?

Que confuso estou! Uma dúvida arrasta outra; talvez, com outros olhos acordei; talvez, por efeito do chá, talvez, por efeito de uma hipóxia cerebral, ainda que transitória, ou ainda, talvez com os mesmos olhos meus, com outro olhar, acordei...

 

PS - Neste texto, há menos de erótico, e de exótico, de mais não carece...

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


Não advogar, há de vogar...

 Eugene Grael

Não se pode retocar o passado! A ser assim, quem este aforismo não advogar, há de vogar no presente, para no futuro se ancorar em um abismo.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


Verás: veraz...

 

Se na verdade te comprazes, ata nesta o teu ser! Se assim o fizeres, verás: veraz liberdade haverá de encontrar aquele que neste preceito, se espelhar...

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


Atém-te, e tem...

 

Houve um tempo, no qual, de demente que fora, a voz da ambição eu ouvia, ou, via nos ardis da vaidade a minha projecção, com efeito, o mundo eu poluía; pô-lo-ia hoje, sem demora, livre do lixo, para torná-lo perfeito, pois, de temente que sou, minha consciência me diz:

 

- À realidade atem, e atém-te à Voz que te ouve...

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.