Se meu criado-mudo falasse, mentiria...

 

Se de um texto, ou de outro, o título expressasse com mais sinceridade o que está a anunciar, não aguçaria tanto a indiscreta curiosidade, que só deixa de ser vulgar, quando não está ocupada a alimentar os curiosos reles. 

 

De poucos móveis se compõe o meu quarto de dormir; entre eles, há dois criados que nos servem - a mim e a minha esposa - ficam um ao lado do outro, tendo uma cama de casal de permeio; o que atende a minha esposa é mudo; se pudesse falar, por tão discreto que é, ainda que dela, seja eu um fiel e amante esposo, creio que dele, nenhuma confissão arrancaria; já quanto aquele que as minhas ordens se encontra, se tivesse o dom da palavra, a mim e a outrem, quando a sós estivesse, entre outros protestos, queixar-se-ia, reiteradas vezes, da falta de boas condições para o seu trabalho a mim prestado, quando então, sublinharia meus descuidos com a sua higiene; creio com segurança, que não deixaria de fazer com toda veemência, referências fastidiosas aos meus livros que estão sobre si, e olha que são muitos! Com certeza assim diria: - Não bastassem estes livros, poucos objetos, pois para mais, espaço não há, muito me sobrecarregam o corpo; e mais, mostrar-se-ia aborrecido por estar bem ao seu lado, todo aceso, o meu novo abajur, até noite velha; finalmente, se mais pacientes fossem os ouvidos de quem se dispusesse a ouvi-lo, e mais atenção lhe dessem, lamúrias de toda sorte, frequentes e diárias, ou antes, frequentes e noturnas, diariamente, ouviriam do meu criado.

Sempre, à hora de dormir, enquanto o eterno sono não me alcançar, ainda mais calado pelo silêncio da noite, meu criado-mudo, acordado ao meu lado, permanece com suas mudas queixas, disposto a me ouvir. Neste momento, ainda que do meu fiel servo, dependa, atenho-me tão somente aos meus bons livros; e são verdadeiramente, bons, e por duas vezes o são: em uma delas, de muito bom grado, mostram-me todo o seu interior cheio de sabedoria; permitem que eu perscrute as suas entrelinhas, quando estas a revelar-me seus segredos se dispõem; por vez, entre uma página e outra, deixam que eu veja algumas imagens suas; finalmente, para meu maior deleite, se ocupam meus livros enlevando-me com suas histórias. De outro modo, vejo a bondade destes meus solícitos companheiros, quando julgando que devo encontrar o sono, localizam-no para mim; e o fazem com uma notável habilidade. Veja quão eficientes se mostram: sempre me entrego aos braços de Hypnos, que me espreitando já se encontrava entre as páginas do exato livro que em minhas mãos se pôs - poderia o deus do sono se ocultar em outro livro ignorado por mim, ou pelo menos, que fora posto fora do meu alcance? Assim poderia ter sucedido! Mas, mais atento estivera aquele meu bondoso amigo que em vigília perene, a velar o meu sereno repouso, entre as suas páginas, deu àquele sonolento deus, abrigo prévio.

Bem sabemos que os deuses são eternos; eternos, entretanto, não são os sonhos de Hypnos, logo creio, quando cansado, para descasar, acordado haverá de ficar; em seguida, já descansado, volta ao sono que o conduz aos novos sonhos, quando então, com os mortais tem conjunções de toda sorte... Tais convicções adquiri, e por várias vezes, pude confirmá-las, quando também por várias vezes, estive entre a vigília e o sono, que em conluio, formam um nublado corredor... No entanto, outra convicção já tivera antes, prensada entre as paredes deste mesmo corredor, que bem clara ficou ao meu entendimento, qual seja não há muita consistência em nossas convicções, quando estas se atropelam entre si, ao cruzarem aquele espaço de pouca luz... 

Voltemos ao leito, pois já é noite velha, quando então, indispostos à vigília, nada diferente do repouso esperamos encontrar, ainda que neste estado, encontremos conflitos vários, uma vez que, ao cairmos nas garras do deus do sono, muita vez, a relutar desejamos continuar acordados. Com grande dificuldade, acordado também quer este deus ficar, visto que, só à custa de um esforço colossal consegue ele se manter desperto, pois por necessidade ou para se manter no inerte trono, sendo deus do sono, muito há de dormir...

Vigilante, esperando continuar alerta, ainda que conte com a sincera ajuda de um dos meus amados livros, aos poucos, vou deixando de compreender o que estão a me dizer as suas palavras, assim, para entendê-las melhor, às colegas suas, que mais recuadas na mesma linha estão, consulto três ou mais vezes; se não tenho êxito, volto ao início do parágrafo; se mais uma vez êxito não alcanço, por vez, tenho que recorrer até à página já virada, e assim, vou resistindo e insistindo, insistindo e...

Desgastado com minha impertinência, vem Hypnos e planta na minha mente, pensamentos e imagens bizarros e incongruentes, alheios ao texto que diante dos meus olhos está.

Menos vaga haverá de ficar esta minha onírica descrição com o exemplo que se segue, ainda que um tanto nebuloso, entre tantos que com semelhante natureza vivem no reino das brumas... Enquanto as letras vão mostrando-me borboletas de mil e uma cores, pousadas às margens de uma poça límpida e rasa, em uma descomunal altura, vejo-me no alto de uma cristalina cascata, que a galgar um dos seus lados, só alados entes podem ser vistos; ainda assim, lá estou a cavalgar a minha montaria que a cair está por pouco, pois por minha desídia, ou por decidir nela confiar, rédeas à larga lhe dou, enquanto descuidado sobre o seu dorso, tomo uma taça de vinho tinto. Diante desta enredada visão, não há jeito, não mais posso insistir, resistir não mais consigo, devo mesmo, nos braços de Hypnos cair. Cair agarrado ao medo, pois sei que em situação de resistência a favor da vigília, Hypnos, por sua vez, vencido e já bambo pelo sono, ainda que um tanto receoso, julgando o seu irmão gêmeo Tânato - deus da morte - mais habilitado para este ofício de nos levar ao sono profundo, cede a este, o seu lugar. Sei também, que por esta rara, quando não raríssima outorga de poder, se se descuidar Hypnos e cair nos braços de seu filho Morfeu, aquele seu irmão - o cruel Tânato - vendo-se livre de quem estava atento às suas intenções, pode até nos negar o sono profundo, para nos impor o eterno, assim, com muita resistência adormeço sem a esperança de mais uma vez rever a luz.

Quanto a você, ainda que em vigília esteja, não está livre de semelhante experiência; com efeito, haverá de acreditar nesta história, especialmente, quando a termino dizendo que em gratidão aos meus queridos livros, ainda que nem sempre possam ajudar-me durante os meus primeiros instantes de sono, por curtíssimo tempo, sou capaz de mantê-los seguros em minhas mãos; e se por mais tempo continuo a agarrar-me à escorregadia vigília, por menor tempo ainda, agora, por devoção aos meus amigos, e para lhes proteger, os entrego ilesos, aos cuidados do meu criado. Meu criado bem sabe que digo a verdade, mas, por não saber falar, ou quem sabe, por desejar ser fiel a mim, mudo continua; e espero que assim continue...

 

Hypnus - (Ὕπνος) - deus do sono, pai de Morfeu

Morfeu - (Μορφεύς) - deus dos sonhos, filho de Hypnus

Tânato - (Θάνατος) - deus da Morte, irmão gêmeo de Hypnus

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


Ah! Se eu pudesse no lugar do meu heterônimo ficar!

 

Ah! Se eu pudesse me livrar do meu pesado “estar a ser”, mais leve seria o fardo que subjuga o meu viver...

 

Não se chega ao fim, sem antes partir do início, logo, inicio, pelo intento que tenho de levar esta página, ou antes, esta tela ao seu epílogo, com uma interrogação a mim, ou outrem: quais as razões que podem levar um escritor a conceber, gerar, e dar à luz um heterônimo, para que esse se tornasse senhor das suas letras, as do escritor? Tantas razões há, que não conteria o desejo de julgá-las; contudo, ainda que sejam várias, nem todas poderiam por mim, ser bem compreendidas, assim, me atenho a não mais que três delas, logo, sem maior dificuldade, as citarei.

Sem mais tempo a perder, ou a ganhar, antes que eu justificar a existência dos heterônimos, tenhamos em mente que toda e qualquer pessoa, em algum momento de sua vida, poderá se ver portadora de uma doença, entre tantas que há; essa afecção evoluirá bem, esvaindo-se para sempre, ou, de forma vária, insidiosa, contudo adversa, após algumas intercorrências, ao se agravar, resultará em um prognóstico reservado, qual seja tornar-se-á sombrio e crônico, até que a morte lhe dê termo, não à afecção, mas, ao seu portador... contudo, entre aquelas doenças, encontra-se uma sem jaça, ímpar e imparcial, pois poderá acometer, sem quaisquer distinções, quaisquer pessoas, ainda que estejam em princípio, hígidas; por ser tão singular, quando essa enfermidade, em firme idade se instala, ou seja, quando ela acomete uma pessoa que já tem consolidada a sua própria identidade, ela – a afecção – poderá encerrar em si uma doce elação, ao suscitar, logo de início,  em sua vítima, um forte desejo de se despojar de si, para em si acomodar outrem...

Antes ainda de alcançarmos aquelas razões – as que levam uma pessoa a conceber um heterônimo para si – desviemos de seu caminho natural algumas palavras, para usá-las à definição de síndrome: síndrome é o conjunto de sinais e sintomas que caracterizam uma enfermidade; a ser assim, se há alguma pessoa que queira mudar a sua própria identidade, ao criar para si um heterônimo, sem nenhum esforço imposto à mente, poderemos afirmar que por demente alguém poderá tomá-la, entretanto, se essa pessoa estiver cônscia do seu próprio siso, não criará para si, um heterônimo para atender a nenhum espúrio desígnio, tão somente o fará para que ele − o heterônimo − assuma a sua obra – a obra da pessoa que o criou – pois, heterônimo não passa de alguém, que não passa de um ente da razão destituído de quaisquer ambições próprias... O novo autor, ou antes, a criatura que haverá de ocupar o lugar do seu autor, para sustentar o seu próprio brio, brilho próprio haverá de ter, através de um perfil bem definido, que bem poderá se assemelhar ao do seu senhor, ou, do dele, muito se distanciar, ou ainda, o que menos usual não é, é o autor substituto se tornar tudo que o seu criador muito gostaria de ser. Quando essa última conjunção se dá, ou seja, quando a criatura por tão mais aprimorada que se tornou, ao tomar posse da obra do seu criador, amiúde, poderá deixá-lo com algum resquício de inveja, com efeito, um tanto ressentido por tê-la criado, poderá ele ficar...

Agora sim, cheguemos às razões que levam alguém que lida com as letras, a criar um heterônimo para si; são elas: o desejo, de início, de não ser atingido pelas críticas; se livrar do assédio dos seus leitores; por fim, pôr fim a outros incômodos menores, porém maiores em número... Depois desse relato, sem óbice, imaginamos a singularíssima conveniência que há, quando alguém cria para si um heterônimo, contudo, ainda que disponha de todos os recursos indispensáveis para levar a termo a sua gênese, se esse alguém, pudesse dotar a sua criatura com o poder da fala, fazê-lo, logo viria; e logo se veria, com muito gáudio, por esse seu ato, bem compensado, pois, poderia ouvi-la dizer:

– Fui criado à tua imagem e semelhança! Entretanto, ainda que muito semelhante ficasse, diferente haverei de ser, mas, mais me aproximarei de ti, quando puder te demonstrar com toda sinceridade que tenho, a minha gratidão; e isso farei, quando for possível, te dizer: – não só me limito a adotar a tua obra, assumo também de bom grado em teu favor, dois grandes ônus que sufocam quaisquer entes humanos, quais sejam a anuência compulsória que se faz ao pagamento dos tributos e o obrigatório convívio social imposto a qualquer pessoa quando entre os seus pares se encontra, e para que o senhor e meu criador entenda bem a dimensão do meu sacrifício, sabe: esses fardos vêm sempre unidos, não se separam jamais, uma vez que, de vez, o viver de um, depende da vida do outro, a despeito de os  percebermos distintos entre si, quando nos impingem o seu peso, pois aquele aniquila o corpo, e esse subjuga a alma. Vê meu senhor! Quão mais feliz seria a criatura humana, quando não felicíssima, se pudesse dizer de si: desci ao rés da minha resistência, subjugada por dois insustentáveis ônus, mas agora, por graça recebida, sinto que tenho força e poder para deles me livrar!

Estava a sonhar com essas palavras do meu heterônimo, quando caí à realidade para tocar nesta cruenta verdade:

A certeza que tenho, para outrem, poderá carrear dúvida, ainda assim, ouso, por todos os semelhantes meus, contudo, antes por mim, admitir: ainda que não alcançássemos aquela graça, creio que não seja possível haver ônus maiores que aqueles dois, a nos deixar mais tesos, com os seus pesos; e são tantos que não há, que se houvesse, seriam capazes de acercar as lindas da imaginação... Ainda assim, estou indeciso, não quanto a possibilidade de me livrar daqueles tributos, mas sim, quanto ao convívio social, pois falta-me evidência para contestar a sua conveniência; a ser assim, tenho certeza que pelo menos uma dúvida não deixarei de ter, e aqui, em forma de interrogação, quero mostrá-la àqueles que me leem, pois sua, ela também poderá ser.

Neste momento, por imposição deste texto, abro um primeiro parêntese, que ao se justificar, justificará um segundo, ou até outros, caso necessários sejam; vejamo-lo, e logo em seguida, veremos a minha dúvida que virá entre parêntese:

“A abrir parêntese, amiúde quebra-se o texto que julgamos carente de reparo; e ao fazê-lo, muita vez, subestima-se o raciocínio de outrem, ou remenda-se o nosso próprio que fora puído”; sob esse, e não sob aquele efeito, é feito aqui, por ser necessário, um remendo; entre estas letras, o faço pela primeira vez, mas, já o fizera antes em outros lugares; e caso seja imperativo, para conservar o hábito velho, de novo, em algures, fá-lo-ei; pois bem, sem constrangimento, tolere este parêntese que se segue, pois o faço por minha conta, logo, logo, ou desde já, estou a remendar o meu próprio raciocínio que fora trincado.

“Há alma solitária, que assim quer ser, na esperança de evoluir por si, para em seguida, só para si se voltar, quando então, colherá sem dividir com os seus pares, os frutos da sua própria solidão?”

Se por resposta a essa indagação, há quem, sem dúvida, possa dizer que sim, todavia, para mim, com toda certeza, duvido que tal existência haja, logo insisto, ao fazer àquele alguém, mais estas duas perguntas: em algum momento, quando a tua alma estava solitária, triste tronaste? Ou tornas-te trinte só quando ao lado de outros semelhantes teus te encontras? Uma vez que, neste momento, de nenhuma pessoa entre todas que estão a ouvir as minhas palavras, nenhuma resposta ouço, ouso ainda dizer: é mais seguro e menos doloroso, que eu me resigne, pelo menos em parte, ao tolerar o convívio social, que seria insuportável, se não estivesse eu sob a égide de um heterônimo; contudo, ainda tenho um grande receio, qual seja, heterônimo é sempre desalmado, ou antes, é sempre destituído de alma própria, e para que assim não seja, alguém poderia lha emprestar, mas, convenhamos, isso não é possível que se dê, pois, nem sequer eu, que dele sou o criador, ainda que o quisesse, não poderia fazê-lo, porquanto nem da minha própria alma posso dispor... A ser assim − e que esse ser não seja para sempre, não há esperança de vida livre nem mesmo para um heterônimo, pois ainda que ele se encontre desvencilhado daqueles jugos, impedindo-o para consolidar a sua plena autonomia, há amarras que lhe tolhem algum movimento, quais sejam, aquelas que estão bem à mão do seu criador e esse podem atá-lo, em qualquer tempo e lugar; e o que é pior, este mesmo criador sentindo-se responsável pelo que criara − o seu heterônimo − sob os grilhões desse, também se encontra.

Depois desse último parágrafo, sem prejuízo à clareza do remate destes dois últimos, posso dispensar novos parênteses, ainda que parentes bem próximos – a incongruência e o paradoxo – clamam por um espaço distinto para melhor esclarecerem a conjunção incestuosa que estão a formar; pois esse casal compõe um nebuloso conluio, com a intenção se meter entre o criador e a sua criatura; e isso concluo por isto:

Muito embora aquela criatura − o heterônimo −  seja virtual, goza de uma grande liberdade, porém vigiada, visto que o seu criador teve liberdade e autonomia plenas, que tanto desejara para si, para concebê-la, gestá-la, e em seguida, tão logo nascera, dominá-la; e agora, por gratidão ou por temor, ela − a criatura − se torna dependente do seu senhor, e esse por se responsabilizar por quem criara, ainda que possa destituí-la de todas as insígnias que lhe dera, não tem poder para lhe retirar das mãos, através da aplicação de tão dura pena, a pena – razão primeira de ser o seu heterônimo – pois se assim o fizesse, menor liberdade ainda teria, ao se tornar novamente, senhor único da sua própria obra; a ser assim, depois de trabalho de sobra e sem falta de frustrações, pela liberdade que buscara, o criador ouve de sua criatura:

− eu valho por mim, pois não desgastou meu físico o fisco, e não corroeram minha alma as armas dos meus semelhantes; assim, vivo na minha essência, que para adquiri-la nada fizeste, logo, de ti tenho pena, pois a pena que tenho à mão, de Outro recebi, embora, pensas que ma deu de presente...

A ser assim − e que esse ser não seja para sempre, não há esperança de vida livre nem mesmo para um heterônimo, pois ainda que ele se encontre desvencilhado daqueles jugos, impedindo-o para consolidar a sua plena autonomia, há amarras que lhe tolhem algum movimento, quais sejam, aquelas que estão bem à mão do seu criador e esse podem atá-lo, em qualquer tempo e lugar; e o que é pior, este mesmo criador sentindo-se responsável pelo que criara − o seu heterônimo − sob os grilhões desse, também se encontra.

Depois desse último parágrafo, sem prejuízo à clareza do remate destes dois últimos, posso dispensar novos parênteses, ainda que parentes bem próximos – a incongruência e o paradoxo – clamam por um espaço distinto para melhor esclarecerem a conjunção incestuosa que estão a formar; pois esse casal compõe um nebuloso conluio, com a intenção se meter entre o criador e a sua criatura; e isso concluo por isto:

Muito embora aquela criatura − o heterônimo −  seja virtual, goza de uma grande liberdade, porém vigiada, visto que o seu criador teve liberdade e autonomia plenas, que tanto desejara para si, para concebê-la, gestá-la, e em seguida, tão logo nascera, dominá-la; e agora, por gratidão ou por temor, ela − a criatura − se torna dependente do seu senhor, e esse por se responsabilizar por quem criara, ainda que possa destituí-la de todas as insígnias que lhe dera, não tem poder para lhe retirar das mãos, através da aplicação de tão dura pena, a pena – razão primeira de ser o seu heterônimo – pois se assim o fizesse, menor liberdade ainda teria, ao se tornar novamente, senhor único da sua própria obra; a ser assim, depois de trabalho de sobra e sem falta de frustrações, pela liberdade que buscara, o criador ouve de sua criatura: 

− eu valho por mim, pois não desgastou meu físico o fisco, e não corroeram minha alma as armas dos meus semelhantes; assim, vivo na minha essência, que para adquiri-la nada fizeste, logo, de ti tenho pena, pois a pena que tenho à mão, de Outro recebi, embora, pensas que ma deu de presente...

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.

 

Com fusos, confusos nossos sentidos...


Muita vez, enquanto sentinelas que somos, a impedir em vão, que se encontrem o sol e as estrelas, a quebrar a nossa vigilância, vem o sono; assim, cegos por conta de suas escuras vendas, podemos ver a liberdade em sonhos; com efeito, neste momento, livres dos grilhões da vigília, raramente dormir estamos, ou antes, enquanto estamos a sonhar, raramente, nos vemos em sonhos, a dormir; neste momento, é como que, algo ou alguém estivera a deixar com fusos, confusos nossos pensamentos.

Esta confusa ilação, creio que fora concebida durante uma longa vigília, que me torturou durante os meus cinco dias em que passei “as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro” *. Assim, “do pouco dormir e do muito ficar acordado” *, fui mesmo ficando confuso, de tal forma, que quando consegui dormir, me vi em sonhos dormindo, ainda assim, não perdendo a esperança de tudo ver às claras; se é que, possível é, em sonhos assim enxergar...  O certo é que quando me despertei, quis entender que cada uma das minhas vigílias futuras, nada mais seria que um período de tempo que se bem tolerado, ainda que longo fosse, ensejaria a minha oportunidade de contrair o direito de receber em recompensa pela espera, ainda que curta fosse, novas ilações pertinentes ao mundo dos acordados.

Com frequência, em vigília ignoro o que faço e esqueço o que fiz durante o sono, assim, surgem confusões; ainda que pequenas sejam estas, arrastam consigo outras, que por vez, grandes são, com efeito, acordado em sonho, enquanto dormia, ou talvez, acordado esperando o sono, concebi estes versos:

 
Pode ludibriar nossos sentidos uma suave essência?

Sim! Pois ao ouvir o perfume da tua voz, não me contive!...

Ou confuso fiquei, por momentânea perda de consciência.

 

Se confuso estava, poderia sentir o doce gosto de tua pele, se pudesse tocá-la!

Não! Confuso não estava; pois, sei que dos sonhos, tu não vens!

Mas, se dominas o meu sono, o que contigo devo fazer, em vigília, para ti dominar?

 

Assim tenho vivido, ou antes, quando acordado não estou, assim tenho sonhado.

Resta-me para sair deste desarranjo mental, consultar meu coração.

Mas, só posso fazê-lo, ou antes, só poderia fazê-lo, se ele não estivesse deprimido!

 

Inertes, desanimadas, indiferentes, são as vítimas da depressão!

Assim não estou, logo, hei de me ver reagindo.

Sinto que meus sentidos, ainda que desorientados, não fazem calar meu coração.

 

E ele, tão forte pulsando, adormecido não pode estar.

Pois, que valha por regra!

- Um coração que não se rende ao sono, motivos tem para querer nos despertar...

 

Pois que assim seja, estou de olhos bem abertos, para senti-lo no meu peito, falar.

Que fale, pois, para ouvi-lo com atenção, atentos estão meus ouvidos.

 

Mas, se possível for, que fale antes, o coração da minha amada, pois, em seu peito, dúvida nenhuma hei de encontrar.

 

* - Da pena do meu queridíssimo Cervantes, saíram estas inferências ao meu amantíssimo “Cavaleiro da Triste Figura”.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


Uma caixa de enxoval...

 

Pode ser que um número de pessoas principiem a leitura deste conto, ou antes, deste feito. Por algumas destas, lamentarei, visto que o seu epílogo dele, talvez, só no próximo verão, verão, pois este é o jeito da maioria dos nossos leitores...

 

O pouco que soubera de um dos meus antepassados, foi suficiente para muito admira-lo, sem jamais tê-lo visto; também pudera, pode alguma pessoa não suscitar admiração depois de sustentar em si, por quase um século de vida, dois grandes vícios em estreita comunhão com uma grande virtude?

Não, não pode!

- E qual fora a composição deste grotesco fardo?

À medida que meu tetravô foi crescendo, em um crescendo vertiginoso, a crueldade e a ganância germinaram em suas entranhas, floresceram, e deram seus frutos, naturalmente malignos foram estes, ainda assim, este emaranhado funesto, reservou espaço a sua família que foi cultivada com muito carinho e zelo. Este homem por duas vezes vicioso para uma só virtuoso, chamava-se Vincenzo Vinotti de Linares - Coronel Vinotti - na Espanha foi dado à luz que ilumina o mundo dos bons e dos maus, no dia 13 de março de 1853; e às trevas que confunde o mundo dos mortos foi entregue no dia 26 de outubro de 1943, assim, esteve entre os seus semelhantes a praticar os seu malfeitos, durante 90 anos, sem deixar nenhuma boa recordação de si, exceto para a sua própria família.

Ainda que não fora estreita a nossa convivência, diretamente das mãos de uma das suas filhas - a mais nova, entre seis irmãs - e que fora irmã da minha bisavó, que por sua vez, fora avó da minha mãe, colhi todas as acuradas informações sobre a sua vida dele.

E de agora em diante, será desta, da minha queridíssima tia Geninha - Maria Eugênia Vinotti de Linares - para grande gáudio seu, se viva estivesse, que falarei.

Eugênia nascera no ano de 1893, no dia 13 de julho - exatamente sessenta anos antes do meu nascimento. Estudou muito e com muito gosto, inclusive línguas estrangeiras; concluiu sua formação acadêmica em outubro de 1918. 

Por ser a mais nova entre as suas irmãs, a obedecer a sequência mais habitual, antes de ir ao altar para se casar, às irmãs suas, cedeu este lugar. 

Voltemos ao seu pai - ao pai desta minha tia, e meu tetravô - antes que eu lhe mostre as suas garras que sufocaram a sua própria filha caçula, mostrar-lhe-ei com quais garras ele se estabeleceu no Brasil, tão logo, chegara da Espanha, ou de lá, para cá, tão logo fora degredado. O certo é que, ao tomar posse da sua nova terra, o fizera com unhas e dentes, pois quase nada esperou, para se tornar próspero produtor de café a ponto de exporta-lo beneficiado para Itália, e o fez, quiçá até à terra que lhe serviu de berço. Não bastasse tão lucrativo empreendimento, a dar mais brilho aos seus negócios, envolveu-se também com a extração e comercio de diamantes; ainda não satisfeito com a diversificação das suas empresas, se viu marchand... Assim, todas estas suas atividades, sempre bem sucedidas, levaram-no à fortuna substancial, com efeito, de posse de um enorme patrimônio econômico, alimentado sempre pela ganância desenfreada, com mais segurança, pode cultivar o seu maior vício, qual seja a crueldade; isto se fazia notar, muita vez, da seguinte forma: por conta de poucos quilates**, ou até por míseros pontos*** de diamante, tornou-se opaco o brilho dos olhos de muitos semelhantes seus... por conta de algumas poucas braças de terra, sob a terra ficaram três ou mais confrontantes seus... por conta de alguma inconsistente prestação de conta, perdia a vida o contador se impenitente continuasse. Assim, pelo viço que este vício - o da crueldade - alcançou sob as mãos do meu avô Vinotti, poderia nomear outras barbáries suas, portanto, por tanta maldade, meu avô suscitava grande temor entre todas as pessoas do seu convívio, ainda assim, o zelo e carinho que ele devotava aos seus familiares, sempre a outrem serviu de valioso exemplo.

Voltemos à tia Geninha:

Quando chegou a sua vez de contrair núpcias, contrariada severamente, pelo seu próprio pai, ela foi; e isto se deu da seguinte forma:

Meu avô - o Vinotti - há três ou quatro anos, estava a fazer negócios envolvendo diamantes e um israelita de nacionalidade polonesa, residente na Alemanha, tal judeu chamava-se Shamir Calin; este periodicamente, vinha ao Brasil, quase sempre, a atender chamado exclusivo do meu avô; em dado momento, quando mais uma vez, aqui esteve, se fez acompanhado pelo seu filho, Raed Calin; Por outras vezes consecutivas, não menos que seis, vieram juntos; na última destas, ou seja, durante a sua sétima estada no Brasil, Raed conheceu a minha tia Geninha; naqueles dias do ano de 1909, ela contava com dezesseis anos de idade, e ele, vinte e cinco anos, também de idade, completara. Já de início, sem nenhuma perda de tempo, a afinidade com o seu límpido olhar, tornou-se cúmplice da paixão cega, e ambas se infiltraram entre as afáveis palavras germânicas trocadas pelos dois jovens, e os deixou encantados entre si, com efeito, a cada vez que se encontravam os dois enamorados, mais florescia entre eles o desejo conjugal, assim, sempre se despediam sonhando com os próximos encontros, e continuaram a sonhar, quando então, depois de grande reflexão, acordaram, o seguinte: vamo-nos casar!

A pensar melhor, por enquanto, por encanto com esta natureza paixão entre jovens bem jovens, ainda que tão especial seja, não falemos mais, pois, talvez,antes deste casamento, instiga-lhe a curiosidade sobre o aspecto destes jovens. A ser assim, devo obedecê-la, para lhe contentar:

Geninha quando estava prestes a dar termo à adolescência, o pouco que lhe sobrava acima da estatura mediana, não era mais do que lhe faltava abaixo do peso mediano; sua tez bem clara e o escuro castanho dos seus cabelos resultavam em singular beleza; o seu olhar azul suscitava o brilho de todos os olhos de todas as cores; a forma pausada do seu falar, e a segurança dos seus passos davam-lhe entrada livre aos mais nobres ambientes; enfim Geninha era uma criatura muito especial... Quanto ao aspecto de Raed, dito já fora, naqueles dias contava com 25 anos de idade; Dele, pouco soube, pois muito, ou antes, nada sobre a sua aparência, não quisera falar a minha tia - a Geninha - entretanto, através desta, fiquei sabendo que o seu pai dela, ao tratar de negócios com o velho Shamir Calin ao lado do seu filho - o jovem Calin - a este não voltava bons olhos, pois julgava-no avaro e muito mercantilista; para justificar estas pechas, alegava meu avô que as opiniões do pretenso genro, com menor frequência tempestivas, só cuidavam de interesses próprios e pessoais. 

Voltemos ao casamento - se é que este haverá de ser - Tão logo meu avô tomou ciência da intenção da sua filha, ou seja, a de desposar Raed, impôs-lhe a seguinte e áspera ordem:

- Este homem não será seu esposo!

Diante de tão imperiosa afirmação, o mundo ruiu aos dois jovens apaixonados, não obstante, não desistiram do seu intento, logo, buscaram a interseção do velho Shamir. Se só a força do velho judeu foi suficiente para dirimir a intransigência do velho Vinotti, minha tia jamais soube dizer, o certo, é que o casamento seria possível, mas, para sê-lo, duas necessárias condições impôs meu avô para sustentarem a sua anuência ao pedido de casamento, e são as seguintes:

- Minha filha e eu carecemos de tempo para obter os devidos preparativos à celebração tão singular; para tanto, dependeremos dos 12 meses próximos; e ainda, até que chegue o dia aprazado à união conjugal dos nossos filhos, minha filha verá o seu noivo não por mais que quatro vezes, ou seja, a cada três meses, ela haverá de recebê-lo; e isto se dará na sala de visitas da nossa casa, quando então conversarão por quarenta minutos, ou por menos tempo, se assim o desejar minha filha.

- Finalmente, minha filha que está prestes a ingressar no curso de medicina, não desistirá de tal intento, e ao alcança-lo, ainda que casada esteja, haverá de perseverar na sua vocação primeira.

Caro leitor, entenda-me, pela interrupção abrupta deste texto, pois, bom sucesso não terei, se não deixar aqui uma adenda, ou quiçá um necessário complemento, para que ele - o texto -  de si mesmo, lhe ofereça uma melhor compreensão.

Mãos à adenda:

Creio que para se redimir, meu avô Vinotti, via de forma subjetiva no exercício médico, a sua própria e plena redenção, e de forma objetiva, via na sua filha mais nova - a minha queridíssima tia Geninha - a sublime vocação à medicina.

Dele - do meu avô - mais dois relatos, ou antes, mais uma prática sua, digna de nota, e ainda, uma afinidade especial que cultivava, devo relatar, pois delas dependerá o epílogo desta história:

Vinotti conservava em seu escritório, de forma muito segura e não menos reservada, um grande cofre, fiel depositário dos seus valores; dentro deste, naturalmente, mais ainda protegido, havia um pequeno baú de metal rígido, para conter exclusivamente, o estoque de seus diamantes, ou melhor dizendo, dos seus brilhantes destinados à venda. Quanto a sua afinidade especial, mencionada acima, nada mais era que a sua inclinação ao numeral 13, pois tudo que podia ser expresso por este signo cardinal, meu avô não deixava de fazê-lo; talvez, esta devoção tivesse as suas raízes em felizes datas passadas, tais quais, o dia do seu próprio nascimento; o dia que pisou em solo brasileiro pela primeira vez, ou seja, 13 de setembro de 1876; o dia que nascera a sua filha mais nova, 13 de julho de 1893; enfim, 13 era o numeral do Coronel Vinotti...

Vamos ao casamento?

Depois de custosos e esmerados, quando não, luxuosos preparativos, deu-se o grande dia do casamento dos jovens amantes. A cerimônia ecumênica ajustada para aquele enlace matrimonial, se daria em um grande espaço reservado às realizações festivas da refinada sociedade carioca.

Questão de trinta ou quarenta minutos do início daquela solenidade, meu avô entendeu de conversar de forma reservada e sigilosa com o noivo, e o fez com poucas palavras em escassos minutos, em seguida, voltou-se para a noiva - a sua filha - com quem teve semelhante conversa; imediatamente após estas duas inusitadas conversações, o noivo, ao lado da sua amada, ambos, visivelmente constrangidos, voltou-se para todos os convidados e disse:

- Por uma brutal contingência, neste dia, minha noiva e eu desistimos de um grande sonho, que tornar-se-ia realidade para nós, ou seja, não mais nos casaremos.

Neste momento, a fisionomia da noiva tornou-se marmórea; a do noivo desoladora já estava, assim, todos ouviram-no estupefatos; de imediato, a decepção que estas palavras disseminaram entre todos que ali estavam, só não foi mais brutal que a desconhecida causa que a gerou.

Diante desta cisão tão áspera ao sonho dos dois jovens apaixonados, conjecturas de toda sorte, surgiram em profusão, sem que o causador das mesmas, o soubesse; duas entre tantas, se destacaram, quais sejam o velho Vinotti, à custa do seu baú de diamantes, persuadiu o pretenso genro, a não levar a termo aquele enlace, e ainda, o cruel Vinotti ameaçou de morte o jovem Raed, caso suas núpcias se consumassem com a sua filha; esta última suspeita tomou mais corpo, quando dias após ao acontecido, alguém disse:

- Raed jamais será visto entre nós... Algum tempo depois, está suposição perdeu força, pois, informações seguras davam conta do desaparecimento do tal baú, o dos diamantes.

Dois anos após este funesto episódio - o seu aborto matrimonial - minha tia já recuperada do golpe sofrido, ou conformada com o infortúnio ocorrido, ingressou no curso de medicina ministrado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro; sete anos depois, ou seja, em 1918 esta faculdade graduou-a doutora em Medicina com todo louvor; logo em seguida, a jovem médica buscou nos Estados Unidos da América do Norte a sua especialização em Neurocirurgia, para tanto frequentou o serviço desta especialidade, no Johns Hopkins Hospital, Baltimore, Maryland, EUA, por três anos muito profícuos, quando então trabalhou ao lado do doutor Walter Edward Dandy, de quem se tornou grande amiga; depois de tão bem habilitada para o ofício médico, a esta brilhante profissional, ao Brasil, chegou o tempo de voltar. Devotar de corpo e alma à Medicina, foi seu compromisso único, quando já no seu país, a compor o Serviço de Neurologia da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, trabalhou ao lado do professor Antônio Austregésilo Rodrigues Lima.

No início dos anos trinta, quando a Primeira Grande Guerra ainda não fora esquecida, e temida a segunda estava a ser, falava-se muito em Eugenia aqui no Brasil. Neste momento, minha tia com a sua reputação muito bem consolidada entre seus colegas médicos, inclinou-se para esta “nova” ciência, isto fez com ela se aproximasse de forma muito estreita do seu colega médico Renato Ferraz Kehl; tal amizade, e tal inclinação lhe impuseram grandes óbices profissionais e sociais, com efeito, desiludida com seu próprio espaço médico aqui no Brasil, preferiu atender o convite do seu colega médico americano, Dr. Walter Edward Dandy, e voltou aos Estados Unidos, onde permaneceu até o ano de 1982, quando então ao seu torrão natal voltou.

Voltemos ao senário do ano de 1941. O mundo estava em convulsão, eclodira a Segunda Grande Guerra; o Nazismo ameaçava os judeus, quando não, extermina-los era o seu desejo; assim, vários refugiados buscavam abrigo em nações neutras a fugir do brutal regime imposto por Hitler, em decorrência desta funesta realidade, chegou ao Rio de Janeiro - exatamente à casa dos Vinottis - o desesperado Raed Calin; ao se deparar com o seu velho algoz - o Coronel Vinotti - disse-lhe o seguinte:

A fugir das garras de Hitler, em Hamburgo, pelas mãos de um anjo brasileiro, chamado Aracy Moebius, conseguimos vistos para chegar até aqui, e aqui estamos: minha esposa Yaffa, minha filha Maria Eugênia, e meu filho Vicenzo. Não dispomos de bens materiais, o Reich expropriou todo o nosso patrimônio econômico. Meu pai foi assassinado, minhas duas irmãs foram enviadas à Lublin, cidade polonesa, onde fora criado o campo de concentração Nazista, Majdanek.

Quando o velho Vincenzo viu Raed, e dele ouviu o nome da sua filha dado a sua filha dele, uma jovem de 17 anos de idade, e mais, dele ouviu o seu próprio nome dado a seu filho dele, um jovem, agora com 20 anos de idade, pela surpresa do presente, não soube bem o que dizer o meu avó, mas pelo remorso do passado, não se conteve, caiu em pranto convulsivo. Tão logo se recompôs diante daquela inesperada visita, o velho Coronel propôs a Raed o seguinte:

Ofereço-lhes trabalho, para você e seu filho; a sua filha, tudo farei para que ela estude, e ainda, imediatamente, vou lhes acomodar por tempo indeterminado, em uma das minhas propriedades residenciais. O contentamento de Raed, ainda que sem medida fora, não lhe conteve a curiosidade, pois deveria esperar momento mais oportuno, ou perguntar a si mesmo, sobre minha tia, mas nem aquilo, nem isto fez, preferiu perguntar ao meu avô; para tal indagação, nenhuma resposta obteve...

A história não dá saltos sobre si mesma, mas sobre esta, podemos fazê-lo, a ser assim, caminhemos daqui por diante, busquemos o ano de 1982, ainda que este já esteja no passado, quando minha tia, aos 89 anos de idade, ao Brasil voltou; voltou gravemente enferma; fora acometida por um AVC* que interessou grande parte do seu cérebro, no que lhe resultou graves sequelas, pois a doença tolheu-lhe boa parte dos movimentos voluntários, embaraçou-lhe a voz, e o que fora pior, ceifou-lhe o desejo que alimenta a vontade de viver. Nestes dias, eu já graduado em Medicina há cinco anos, passei com muito carinho, a lhe dispensar meus cuidados médicos. Tudo fazíamos minha esposa e eu, para que a minha querida tia tivesse uma merecida e boa qualidade de vida, embora, de forma permanente atada a um leito. Com grande dificuldade para se expressar, a nossa bondosa enferma, manifestava a sua gratidão pelo nosso carinho dispensado a ela, mas, para surpresa nossa, esta manifestação se fazia mais notar a minha esposa, com quem minha tia tivera pouco contato, ainda assim, e até para maior surpresa nossa, quando não para nossa estranheza, minha tia, por reiteradas vezes, durante os seus 8 anos restantes de vida sob os nossos cuidados, fez tudo para que eu entendesse que treze dias após a sua morte, o seu baú de enxoval haveria de ser meu.

- Um baú de enxoval feminino deveria ficar para um sobrinho?

Sim! Pois este baú sempre foi singular; tornou-se completo no ano de 1910; uma vez trancado, não mais foi aberto, pois razão para que diferente fosse, ninguém ouviu, uma vez que casamento não houve; assim, sempre fechado, a conter artigos franceses, foi aos Estados Unidos, voltou ao Brasil, voltou aos Estados Unidos, e finalmente, voltou ao Brasil, quando no dia 26 de março de 1990, foi aberto depois de permanecer sob o jugo de três cadeados durante oitenta anos.

Minha querida tia Geninha faleceu no dia 13 de março de 1990, dia do aniversário do seu pai.

- E o que havia naquele baú?

Havia um grande enxoval que se compunha de:

Seis Jogos de lençóis para casal de algodão. 

Quatro Jogos de lençóis para casal bordados

Quatro Jogos de lençóis para solteiro de algodão

Dois Jogos de lençóis para solteiro bordados

Quatro Colchas para casal de crochê

Duas Colchas para solteiro de crochê

Um Edredom para casal de lã

Dois Edredons para solteiro de lã

Um Cobertor para casal de lã

Dois Cobertores para solteiro de lã

Seis Jogos de toalhas de banho lisas

Dois Jogos de toalhas de banho bordadas

Seis Toalhas de rosto

Quatro Pequenos Tapetes

Um Par de Chinelo em couro

No fundo deste baú, sob este volume de objetos, estava envolto em um pequeno lenço de seda vermelho um relógio de bolso; um relógio da marca Roskopf Patent; e sob uma das suas duas tampas, a mais interna, figurava a seguinte inscrição:

“RC für ME

Nach der zeit, ich vergesse dich nicht...****”

E ainda, também sob todo este conteúdo, havia um pequeno baú, um pequeno baú de metal rígido contendo treze valiosíssimos brilhantes.

 

 

* - AVC - Acidente vascular cerebral, vulgarmente chamado de derrame cerebral, é caracterizado pela perda rápida das funções neurológicas, em decorrência de uma isquemia, ou hemorragia que acomete os vasos sanguíneos cerebrais.

** - Um quilate equivale a 200 miligramas

*** - O quilate é subdivido em 100 pontos, assim cada ponto equivale a 2 miligramas.

**** - Depois do tempo, não me esquecerei de você...

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


Os olhos de Lucinda - um conto de Natal...

 

Há bons anos tornara-me padrinho de batismo de uma pequenina e frágil recém-nascida, Lucinda é o seu nome.

Enquanto a minha afilhada está a crescer, deixemos aqui grafados outros capítulos de um tempo que bem no passado ficou; estes sustentarão outros pares seus que a esperar ficarão...

Quando tínhamos sete anos de idade, o pai de Lucinda - que naturalmente, ainda não o era -  e eu, nos tornamos colegas das primeiras letras; estivemos juntos por três anos consecutivos; depois deste tempo, nos separamos; ele continuou na mesma escola, e eu me mudei, inclusive de cidade. Depois deste tempo passado, passados trinta anos, e há vinte anos, nos reencontramos. Naquele momento, ele estava casado há sete anos; tornara-se marceneiro de mãos cheias, mas, vazia estava a sua casa, uma vez, que filhos não concebera a sua esposa, muito embora, para tê-los, a medir esforços não estavam.

Estreitamos o nosso convívio, meu ex-coleguinha de escola e eu; pude então, acompanhar de perto o grande desejo e esforço do casal para se tornar pais. Depois de muito empenho, uma sentença médica, de vez, frustrou-lhe a esperança, pois, à esposa disse de forma intempestiva e inconsequente, um médico:

- A senhora jamais poderá se tornar mãe!

Ledo engano fora tal afirmação, pois, tantas mães há, sem nunca ter parido... Estas foram as minhas palavras diante do desânimo daquele casal amigo.

Para grande alegria de todos, quase nada demorou; naquele lar, ouviu-se o choro duma criança recém-nascida; meus amigos adotaram a linda Lucinda de olhos verdes...

Se ao tempo pretérito voltamos, agora, ao presente retornemos:

Nos dias de hoje, minha afilhada tem dezoito anos de idade; os completou em setembro próximo passado. A cada ano desde que nascera, com todo carinho, dou-lhe no mínimo três presentes em três momentos especiais, quais sejam no dia do seu aniversário, no dia das crianças, e no dia de natal.

Dias antes do último natal próximo passado, meu compadre Olimar - este é o nome do pai de Lucinda - disse-me:

Tenciono dar a minha filha e afilhada sua, neste Natal, um presente de grande valor, para tanto, não disponho de verba suficiente; penso que você poderá ma emprestar.

Respondi-lhe:

Para este fim, dou-lhe o quanto você precisa; e a mim nada ficará a dever; também eu, no dia de Natal, em sua casa, estarei presente, a levar o meu presente, porém, de valor bem menor.

Deu-se aquela noite de natal - a do ano próximo passado - e lá, não fosse um imprevisto, vistos seríamos, minha esposa e eu, entre muitos das famílias dos pais de Lucinda: avós de um lado e outro, tias e tios, sobrinhos, enfim, por conta do bom velhinho, a casa tornara-se cheia.

Só ao terceiro dia deste ano, o que está a se findar, para dar lugar ao próximo, pude me encontrar com a minha afilhada. Sim! Aquela menina de olhos verdes que por tanto gostar de se ver, se visse nesta tela, alguém a descrever-lhe a imagem, mais vaidosa ficaria... 

A ser assim, vejamo-la:

Lucinda tem dezoito anos de idade - dito já fora - cultivados sem estremas, sob o carinho e desvelo dos pais, do pai, especialmente.

É meiga, é inteligente, é muito estudiosa, contudo, não menos vaidosa. Quanto ao seu olhar, ou antes, quanto aos seus olhos, tenho isto para falar: seus olhos são capazes de encantar o olhar de quem os vê, para em seguida, atrai-lo para dentro de si, desbota-lo, e por fim, pôr fim às esperanças suas...Talvez, para descrevê-los, já deveria mudar estas últimas palavras, e o farei, se mas emprestar dentre as suas, o meu amigo Joaquim:

Seus olhos “traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.” *

Entreguei-lhe o presente - um smartfone, o mais novo lançado, se velho e desusado não se tornou na semana que o comprara - em seguida, lhe perguntei:

Que presente seu pai lhe deu?

- Você sabe, meu pai é aquele antiquado de sempre, para não dizer imbecil, pois, na noite de Natal, disse-me:

- Pelos seu lindos olhos verdes, Papai-noel pediu para eu lhe entregar este par de brincos de esmeralda.

 

* - Estas palavras entre aspas, são do meu queridíssimo amigo Joaquim Maria Machado de Assis

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.