Um demente de mente sã

 

Sem falta, falto de raciocínio está aquele que tem oportunidade a observar uma coruja, se em seguida, nada dizer, pois ainda que não tenha farto discernimento, de modo natural e esperado, por vê-la em seu comportamento usual, haveria de dizer estas pertinentes palavras:

- Coruja é uma ave muito inteligente!

Se a observar aves, fora inteligente bastante, aquele que fez esta afirmação, nenhum engano cometeu, ou pelo desejo de observá-las, ou por ter expresso tamanha verdade sobre as corujas.

Eu, não a estar só a dizer isto, digo que também tive experiência com estas lindas aves, as corujas. Isto se deu, ou antes, isto iniciou-se há três anos, da seguinte forma:

Por razão que será notada mais à frente, assim dou início a esta narrativa:

Naqueles dias ainda contávamos com meu avô; nos dias de hoje, entre nós, já não mais o temos; que o tenha Deus!  Ele - o meu avô - após o seu jantar, que das dezenove horas não haveria de passar, por recomendação médica, fazia a sua sesta bem acomodado em uma confortável poltrona que compunha a ampla varanda que se estendia, voltada para um grande jardim interno a compor a nossa casa. Lá, ou seja, neste espaço, em um dado momento, fora notada uma pequena coruja interessada nos insetos que ali em paz viviam. Por longos dias, em detrimento à sesta habitual que tanto meu querido vovô prezava, pôs-se ele a observar aquele furtivo visitante, e o fez com grande zelo, e não com menor discrição, que nada tardou para que a pequena ave trouxesse para junto de si, o seu par, par que seria o seu companheiro, se fêmea fosse essa... Em pouco tempo, pela fartura de alimento e segurança que aquele espaço dispensava ao pequeno casal, este assenhoreou-se daquele habitat. Meu avô a notar esta posse definitiva, passou a tratar ainda com mais carinho os novos hóspedes, tanto o fez, que lhes deu nomes próprios, a saber, Biloca e Chumbinho; Chumbinho haveria de ser o macho, se já antes o era, aquele que menor porte tinha. Fora este o primeiro a explorar tão aprazível território, ora transformado em seu doce lar, ou ao menos, por farta e segura praça de alimentação interpretado. Não houvesse inconstância das visitas do bem aceito casalzinho, dúvidas à denominação definitiva daquele dito lugar não haveria, pois se neste, efetivamente morassem as pequenas e bem vindas aves, lar seria a palavra apropriada a denomina-lo, mas, se só a buscar - ainda que de contínuo - alimentos estivessem as tão bem aceitas corujas, praça de alimentação melhor calharia a nomear aquele ambiente... De uma forma ou outra, ou seja, a residir, ou só a comer, as corujinhas estavam sempre presentes naquele sítio; assim, meu avô, para grande deleite seu, diariamente, ou antes, tão logo chegava a noite, muito à vontade, ficava ao lado dos alados animaizinhos; por tantas vezes que isto se deu, meu vovô sem a mínima intenção a cativá-los, a cativá-los mais, entendeu de lhes deixar à disposição um tentador complemento alimentar, qual seja, grilos; assim, por este intento, pôs-se a criá-los, e o fez com a ajuda do seu querido neto - que em tempo futuro, haveria de narrar esta história - Aquele expediente - o de criar grilos - ensejou bons frutos às corujinhas, que agora mais afáveis, tornaram-se mais assíduas e fieis ao horário do jantar.

Quando tudo estava a andar e a voar bem, entre meu avô e as suas corujinhas, revelaram-se-lhe os primeiros sinais e sintomas de uma enfermidade grave que já o acometia silenciosamente. A memória se lhe definhara de forma brusca; o interesse por quase tudo se lhe esvaíra, e a até seu bom humor, sempre estampado em seu rosto, esmaecera; tudo nos levava a crer que em breve, ele estaria demente, pois, de mente sã, já não se encontrava-se, posto que tudo esquecia, e quase nada compreendia...

Neste momento, por imposição deste texto, abro dois parênteses; o primeiro ao se justificar, a justificar o segundo está; vejamo-los:

““A abrir parênteses, muita vez, quebra-se o texto que carece de reparo, para tanto fazer, subestima-se o raciocínio de outrem, ou remenda-se o nosso próprio que puído fora”, a ser assim, sob esta ou essa justificativa, aqui abrirei um deles, e não o farei pela primeira vez, pois vezes por outra, o fizera antes; logo, se necessário for, para conservar o hábito velho, de novo, em algures, fá-lo-ei; pois bem, sem constrangimento, tolere estes que se seguem, pois o faço por minha conta, logo, logo, ou desde já, estou a remendar o meu próprio raciocínio que fora trincado”

“Demência senil é uma afecção que acomete pessoas, quase que sempre, a partir dos seus 65 anos de idade; com maior frequência, alcança o sexo masculino. Tal enfermidade se caracterizada pela perda progressiva e irreversível das funções cognitivas, tais quais: alteração de memória, de raciocínio, de linguagem; incapacidade para reconhecer ou identificar objetos; e ainda, o portador desta doença, cada vez mais, perde a capacidade de realizar os seus próprios movimentos físicos. Esta doença é uma das principais causas de incapacidade aos idosos, pois, em especial, a perda da memória torna-os cada vez menos capazes a se orientarem no tempo e no espaço, logo, não entenderem o que se passa ao seu redor, não reconhecerem as pessoas, ainda que sejam estas as mais próximas de si; por tais consequências, as vítimas desta enfermidade, não se orientam a contento, logo, se perdem com frequência em seu próprio ambiente, com efeito, tornam-se ansiosas e agressivas, contudo, talvez, não sofram tanto por conta desta moléstia, uma vez que mal percebem a perda da sua própria autonomia”

Voltemos logo depois do primeiro “vejamo-los”, mas, para fazê-lo, a partir daqui, continuemos:

Ainda que pouco a compreender, e muito a esquecer, meu vovô continuava a atentar na doce faina das suas amigas corujas; delas falava com frequência; assim a agir todos os dias, em um especial entre estes, para minha surpresa, ou antes, sem nenhuma estranheza me causar, pois em virtude da sua enfermidade, bem aceitas, quando não bem toleradas, eram quaisquer palavras suas, disse-me:

- Minhas amiguinhas, amiúde, falam de assuntos pertinentes a nossa família, máxime, daqueles que lhe dizem respeito!

A esta assertiva, não fosse pelo singular plexo da sua forma, pela falta de nexo do seu conteúdo, nenhuma atenção haveria de dar, ainda que o bom senso permeasse-me com um profundo sentimento de pena e admiração, uma vez que, ilógico a falar estava há meses, o meu avô.

Dias depois deste formidável incidente ter ocorrido, disse-me meu vovô:

- Minhas amigas (com estas palavras, referia-se ele às corujinhas), estão sempre a falar aos meus ouvidos. Posto que com clareza as compreenda, não lhes ofereci em tempo algum, nenhum comentário, a propósito de suas palavras dirigidas a mim, pois, muita vez, receei não me fazer compreendido, mas ontem, à noite, tornaram-se infundados todos os meus temores, quando Chumbinho dirimiu todas as minhas dúvidas, ao me assegurar que na próxima semana, em sua companhia, haveria de estar uma grande amiga sua, muito sábia, muito hábil, e não menos capaz a ler pensamentos humanos, e em seguida, modulá-los à linguem da sua própria espécie.

Mais uma vez, estas palavras do meu avô, lembraram-me recordar dos seus contínuos e inúmeros anos de vida, em que de mente sã e brilhante, a tratar de quase quaisquer temas concernentes ao interesse das sábias e sensatas pessoas, o fazia de forma escorreita e encantadora; agora - pobre coitado! - sem ter mãos às rédeas da sua própria razão, ainda assim, por um grande mistério, só explicado por outra razão maior, se expressava de modo tão coerente, a narrar tão extraordinária fantasia. Diante dele, um tanto comovido pela sua miséria, limitei a perguntar:

Em que dia exatamente, nos visitará a sábia coruja?

Prontamente ele respondeu-me:

- Quarta-feira próxima, às 20 horas e 27 minutos, em ponto. E continuou: digo-lhe mais, ou antes, menos não lhe peço: esteja ao meu lado a recepcioná-la, quando então, por pensamento, você haverá de lhe fazer alguma pergunta, de antemão elaborada e guardada em sigilo, em sua própria mente; ao ler esta, a sábia coruja, a pronto, dará conta de transpô-la à língua de seus pares, que presentes também estarão, em seguida, uma ou outra das minhas amigas, sem demora, me devolverá a sua interrogação, e eu, de imediato, lha entregarei em mãos, assim, sem nenhuma dúvida, por minha palavra e pelo seu são discernimento, ficará constatado este inusitado, quando não jamais visto, fenômeno.

Diante desta insustentável descrição, teria ficado mais estarrecido, se menos confuso estivesse, contudo, por uma inexplicável razão, me dispus a esperar a próxima quarta-feira, e o fiz com certa ansiedade, pois deste dia distante estava, uma vez que em um sábado, tomei esta resolução.

Três dias depois deste sábado, à noite, meu avô instou-me com estas palavras:

- Advirta na importância da próxima quarta-feira!

Compreendi a sua intenção, e mais agucei minha atenção às indolentes horas que se arrastavam...

Ao amanhecer do esperado dia, já aguardava o seu anoitecer, logo, tive tempo, antes que a noite chegasse, a fazer estas duas reflexões:

Meu avô, para incompreensão de qualquer pessoa que o conhecia, encontrava-se entre dois mundos, um deles - aquele onde qualquer ente vivo pode se acomodar - lhe incomodar não mais conseguia, pois, nada mais lhe dizia, nada mais lhe oferecia, enfim, neste mundo, ele já não vivia; o outro mundo - o criado por um casal de corujas - o acolhera de asas abertas, pois lá, ele contava com suas amigas, ainda que de duas, jamais passara; delas ele falava sempre, com carinho e  nexo esplêndidos, só notados, quando naquele outro mundo ele vivia em paz com os semelhantes seus...

Quanto a segunda e última reflexão, a concebi a me dar alívio, pois, vendo-a em execução, tudo ficaria às claras... Ei-la:

Nesta quarta-feira, à noite, irei ao encontro da tal coruja - aquela que tem capacidade a ler pensamentos humanos - isto farei tão somente, a contentar meu avô, pois semelhante disparate, em sã consciência, não haveria de cometer. Se isto não passa de fantasia, se lhe der complemento, qualquer que seja este, não a levarei ao real, logo, deixo aqui grafado, uma asserção, que não haveria de ultrapassar as estremas do meu pensamento, se diante daquela coruja estivessem este e eu. Eis a asserção:

“Entes não afins, fim nenhum têm a trocar mensagens entre si”

Veja leitor amigo! Este pensamento que apenas, à sábia coruja, aquela que tem a singular capacidade a lê-lo, deveria ser revelado, entretanto, confiante na sua absoluta discrição, deixo-o ao seu alcance, mas, não sem antes lhe pedir:

Depois de lido, delido haverá de ficar para sempre!

A esperada noite de quarta-feira chegou; cheguei às 20 horas; lá já estavam há tempo, meu avô e as suas duas amigas por mim a esperar. Esperar o que? Pensei! Muito comovido com a esperança sem nexo do meu avô, um tanto constrangido, aguardei mais 26 minutos. Antes que o próximo minuto expirasse, suavemente, a cruzar os ares daquele mistério, deu ares da sua graça a sábia e idosa coruja; tão posou, tomou seu lugar entre as suas duas amigas, voltou-se para mim, mas não sem antes menear de forma muito sutil a sua flexível cabeça ao meu avô. Fiquei atônito! Entre pensamentos desordenados, tentei modular o único que o momento exigia a consolidar, ou a dar fim a tão formidável sena; e assim o fiz, pois assim pensei, ainda que à custa de grande esforço:

“Entes não afins, fim nenhum têm a trocar mensagens entre si”

Tão logo saí do “si”, a sábia coruja fitou-me; seus olhos, pelos meus, como que um par de agudos punhais, penetraram meu ser, escindindo-me em dois entes; um deles, atado por um fugaz instante, logo se reencontraria, o outro, preso para sempre ao mundo virtual, sem poder para vir a atual realidade, haveria de ficar...  

Quando voltei a mim, voltei ao meu quarto, disposto a esquecer para sempre, daquela grotesca noite.

Por vários dias, preferi não falar ao meu avô, sobre aquela funesta quarta-feira, mas com o severo agravo da sua enfermidade, em um determinado dia, ou antes, em uma determinada noite, por curiosidade, ou por pena do seu penar, diante das suas duas amigas corujas, lhe fiz esta pergunta:

E a sua terceira e sábia amiga, por onde anda?

Ele, com dificuldade até para mover seus olhinhos quase que apagados, com voz sussurrante e arrastada disse-me:

Meu netinho! Naquela mesma quarta-feira, quando a vimos a primeira vez, de vez, ela nos deixou, para não mais voltar, mas antes pediu-me que lhe entregasse estas palavras, “Somos entes afins, a ser assim, um fim único nos leva ao Ser”

Neste mesmo dia, em que ouvi de uma sábia coruja estas palavras, ou pelo meu queridíssimo vovozinho, as recebi, às 3 horas, de vez, ele nos deixou, para não mais voltar.


 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


Um Lápis e uma Borracha...

 

Alguns jovens, e são poucos, continuam solteiros até que jovens não sejam mais; outros, bem antes de se tornarem adultos, querem se casar; assim aconteceu com um especial casalzinho - um Lápis e uma Borracha - que por algum tempo, pelas minhas mãos passou.

Conheceram-se os dois, quando ele mal rabiscava as suas primeiras letras, pois, de criança, mal passara, quando não, sobre linhas retas, muito torto escrevia; ela que além de criança, não passara, hesitava em remover até mesmo um ponto, pois, ainda que fosse este mal definido, bem definia um final, que um novo início, poderia frustrar se apagado fosse... 

A paixão de um e de outro não fora contida; por este tão grande despropósito, uma sábia folha de papel, por não mais, há muitos anos, se encontrar em branco, e que à custa das velhas borrachas, bem escolhia as palavras a serem grafadas em si mesma, a julgar reconhecer de longe, os maus rascunhos do matrimônio, quis opinar à frente do romance dos dois jovens, logo, entre outras linhas suas, escolheu abaixo, estas para se expressar aos dois apaixonados:

- Quero que saibam: sempre tive a minha vida pautada na ética; sempre mantive uma linha de conduta coerente ao tratar com as letras; às claras deixei sempre a minha folha corrida, que nenhum borrão traz; jamais permiti às letras, em quaisquer circunstâncias, que ocupassem o espaço das minhas entrelinhas; assim, com a mais pura das retas intenções, digo-lhes, ou antes, faço-lhes duas importantes interrogações:

É possível haver união mais malfadada, entre estes dois jovens, que o matrimônio? Ambos não reconhecem a perene incompatibilidade de gênios que haverá de mantê-los unidos à infindável discórdia? Pois, você jovem Lápis, tem por ofício, o escrever; e você pueril Borracha, ao escrito dará fim com o seu apagar, logo, a pagar sempre estarão vocês por tão antagônicas ocupações.

Para estas perguntas, respostas ainda que houvesse, não houve suficientes para dissuadir o casalzinho deste propósito, logo, ao altar foi.

Se no início, tudo são flores, para melhor lugar, além de um jardim de infância, não poderiam ir juntos os recém-casados em busca de trabalho! Assim, por juntos que estavam, juntos foram ajudar crianças quando com as suas primeiras letras, tiveram o primeiro contato. Dúvidas não havia: quando saia um garrancho daquelas mãozinhas incipientes, da quase insipiente Borracha saia a correção. Se pelo Lápis, com uma nova tentativa, sucesso não alcançavam as criancinhas, pela Borracha, nova correção ao erro se aplicava. Assim, pelos cônjuges, um a escrever e o outro a apagar, por anos a fio, corrigidas foram as letras; retocadas ficavam as palavras; modificadas permaneciam as frases; por fim, moldadas as ideias se perpetuavam...

Por anos de bom trabalho, o casal foi promovido; foi ajudar alunos maiores de maior experiência com as letras, ainda assim, logo, houve as primeiras dúvidas...

Se entre o casal trabalho houve menos, mais dúvidas surgiram!

- Está errado! Vou apagar! Dizia a Borracha.

- Está certo! Não apague! Dizia o Lápis.

Depois de pouco trabalho e muitas divergências, o casal, por mais merecimento reconhecido, novamente foi promovido; foi ajudar alunos que quase sempre dispensavam ajuda.

Trabalho quase que nenhum, tinha para fazer o casal, logo, sobrava-lhe tempo. Por tempo por demais ocioso e trabalho de menos proveitoso, naturalmente, desencontros tornam-se frequentes, e assim, para o casalzinho, diferente não poderia ser:

- Se você apagar, não mais escrevo! Dizia o Lápis.

- Apago sim! Pois você quase nada, sabe escrever! Dizia a Borracha. E continuou: ultimamente, muito me incomoda continuar a carregar sinais indeléveis de suas agressões, perpetrados em momentos, em que você ocupando-se com a ociosidade, ou tão somente se envolvendo com a falta de inspiração, deixa em meu corpo o rastro de seu grafite; são sinais que não posso apagar, pelo menos de imediato, contudo, poderei perdê-los, se à idade bem avançada, eu caminhar.

Ao surgir a discórdia entre o casal, não se acomodou, antes, em um crescendo a tomar forma foi; e ao atingir corpo maior, ultrapassou as estremas do campo profissional; tal enlace, quase sempre, diferente não haveria de ser, pois, quase sempre, a discórdia, que não respeita limites de idade, quando não, com esta, a tomar mais força, se alastra e alcança a vida pessoal dos cônjuges.

Em dado momento, em um papel, para que ficasse mais bem apontado, disse, ou antes, escreveu o Lápis à Borracha:

- Você tem me desgastado muito!

- Desgastado? Respondeu a Borracha, se há desgaste entre você e eu, a desgastada sou eu; você ultimamente, ou até, há muito tempo, está a me desapontar!

- Desapontar? Disse o Lápis, quem está a desapontar com você, sou eu; para melhor lhe dizer, digo que por você, tenho sido desapontado há anos! E saiba mais, continuou o Lápis, para meu consolo, nada nesta vida é permanente; vejo que a nossa separação virá sem demora!

- Não fale esta palavra - permanente - disse a Borracha; e mais pálida, além da sua cor natural, tornou-se; dominada pela cólera, continuou:

- Pensa que me esqueci do seu envolvimento com aquela caneta? Pensa que não notei sua intenção, ao pensar que tornariam indeléveis seus escritos se os cobrissem com sua tinta dela? Se ela não tivesse sangue azul, ou antes, se não tivesse tinta azul permanente, teria levado em conta os seu grotesco assédio; ainda assim, naqueles dias, por lhe querer bem, ou por mal conhecer a sua índole, o que mais provável fora, estive disposta a perdoar o seu erro, finalizou a Borracha.

- Não fale esta palavra - erro - disse o Lápis; e com a ponta em riste, continuou: pensa que me esqueci do seu envolvimento com aquele maldito Errorex? Pensa que logo não percebi seu intento ao se unir a ele? Esperava ter êxito para se tornar capaz de apagar letras à tinta? Ledo engano cometeu! 

A Borracha muito desapontada, ou para melhor deixar escrito, muito agastada, disse:

- Tanto tempo ao seu lado, especialmente no início da nossa união, desgastei-me muito lhe prestando serviço; muito cedo perdi meus vincos; hoje me encontro disforme, de forma arredondada é o termo melhor; contudo, ainda que incorra em novo erro - Oh! Perdoe-me pelo termo - ainda que incorra em novo engano, penso que é melhor passarmos uma borracha em tudo...

O Lápis, agora furioso, respondeu:

- Veja! Que proposta inaceitável é esta sua! Você acha que é tão simples assim? É só passar uma borracha em tudo, e pronto? Estará tudo resolvido? Você deixa de ver que durante a nossa vida em comum, só coisas boas e certas escrevi!

- Nisto concordo com você, redarguiu a Borracha, mas, para tanto, devo dispor do sim e do não: pelo sim, digo: quando você acertava, eu por engano, vez por outra, apagava o seu escrito, assim, dava-lhe a oportunidade para acertar mais uma vez ao reescrever sobre o que fora apagado; pelo não, digo: quando você errava, eu com segurança, apagava, assim, dava-lhe a oportunidade para o certo grafar; por ter sido sempre assim, posso concluir: só lhe dei oportunidade para acertar, logo, errar - oh! Mais uma vez, perdoe-me pelo termo - graças a mim, não pode você! A ser assim, só resta-me dizer: outra solução não vejo a não ser que passemos uma borracha em tudo e recomecemos nossa vida a partir das primeiras letras.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


Uma verdade bem dita, bendita...

 

A considerar a infinitude do Universo, há infinitas possibilidades ao ente humano imerso neste espaço que o envolve, a ser assim, talvez, ou antes, ao menos uma certeza há, qual seja, antes do primeiro “a ser assim” há uma verdade bem dita, bendita, absoluta e perene.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


Meu vidrinho de perfume

 

 

  A minha queridíssima esposa - meu vidrinho de perfume - Que há mais de 40 anos está a me inebriar.

 

A tua essência, jamais cansarei de sentir.

Dissentir do meu amor,

A prudência há de te impedir,

Pois do teu perfume, apenas, sob o jugo da eterna dor

Minha alma algum dia, haverá de prescindir

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


Falso evento, é o vento...

 

Aos dias de hoje, meu cunhado e eu conservamos uma amizade desusada, porém, muito comum ao passado, que pouco lugar dava ao fugaz... Nascera há quarenta e cinco anos quando éramos crianças das primeiras letras; estávamos lá com os nossos seis a oito anos de idade, quando germinou entre nós, a sementinha da fraternidade; essa, logo cresceu, não tardou a florescer, e bons frutos está a nos oferecer de contínuo.

Quando meu amigo – que seria no futuro, o meu cunhado – e eu estávamos a consumir os últimos dias da nossa adolescência, de sua irmã enamorei-me; por forte paixão dividida entre ela e eu, nos casamos logo. Ele – agora o meu cunhado – depois de dez anos desse meu bem-feito, afeito aos carinhos da sua jovem e bela namorada, quis levá-la ao altar, e para lá de corações dados, foram juntos. 

Apoiado pelo dom à terra, que lhe fora dado pela clemência da Natureza, e amparado pelo dote, que lhe fora dado pela benevolência do sogro, o meu cunhado tornou-se fazendeiro, ou antes, fazendeiro já nascera, assim, se ocupava com a sua linda e quase que sem lindas, extensão de terra; toda formada em pastos verdes aos seus brancos bovinos de corte. Eu desde jovem, me envolvi com as fazendas, e de tanto vendê-las de metro a metro, pude bem há pouco tempo, comprar uma fazenda de alguns e bons quilômetros quadrados. Por influência daquele cunhado, que há seis anos, também tornara-se o meu compadre – uma vez que minha esposa e eu levamos à pia batismal, a sua filha – entendi de engordar bovinos; e ao deferir o bom conselho que me fora dado por ele, ao próprio conselheiro haveria de me recorrer, pois seria seguro e oportuno em suas mãos, comprar a minha primeira partida de bezerros para ocupar meus pastos que de animais estavam faltos e fartos de forragens se encontravam; não tive dúvidas assim o fiz:

Você conhece bem o meu chão; está todo formado e desocupado; quantos garrotes lá posso pôr à engorda?

– Seu pasto está todo vedado; dentro de pouco tempo, perder-se-á o capim; a ser assim, ponha logo todos os animais que a área comporta; e essa não menos que 1500 cabeças suporta.

Não disponho de verba suficiente para comprar esse lote; está ao meu alcance, adquirir apenas umas 800 cabeças.

– Faça algum esforço! Dou-lhe prazo para me pagar o restante, e ainda facilito-lhe o preço, tudo que tenho disponível, é tudo que você precisa, ou seja, tenho 1500 cabeças; aproveite este momento!

Vamos ver a boiada, mas só comprarei o que posso. E isto se deu no dia aprazado.

Antes de continuarmos com esta história que envolverá também os irracionais, desses falemos, pois isso, necessário se faz:

Nelore é um raça zebuína, um tanto arisca, ou até arredia, ou para melhor ficar claro, suprimamos estes adjetivos, e deixemos em seu lugar a seguinte afirmação: essa raça não se envolve facilmente com os homens, pois sobre as nossas intenções tem dúvida, ou certeza tem de que somos os seus algozes; a ser assim, lidar com esses animais requer segurança e atenção ampliadas.

No dia que fomos separar os meus animais, para grande admiração nossa, à frente da garrotada toda irrequieta ainda que contida em um amplo curral, deu-se bem ao alcance dos nossos olhos um sucesso inusitado, qual seja surgiu do centro da manada, um determinado garrote – de aparência e porte muito semelhantes aos dos seus pares – e se aproximou devagar à nossa frente, quando então a uma pequenina distância do meu compadre, quase que ao alcance de suas mãos, ficou por um instante não tão fugaz, sem fazer movimento algum, como que se apresentasse a ele; em seguida, a passos lentos, se meteu de onde saíra. Tudo que meu cunhado disse sobre este quase que desprezível incidente foi o seguinte:

– Este bezerro é muito estranho! Que comportamento inusitado! Mas, deixe-o pra lá, pois, a narrar falso evento, é o vento quem tem mais a nos dizer...

Muito embora tal comportamento fosse incomum, não nos desviou do nosso intento, ou seja, retirar de toda a manada, um lote de 800 cabeças; para tanto fazermos, nem mais nem menos trabalho tivemos, ainda que separar 800 animais de um rebanho de 1500 espécimes, com todas as veras, requer disposição e cuidados intensos. Meus animais ficariam presos em pasto separado, até que os pudesse levar todos à minha propriedade.

Na manhã seguinte, bem pela manhã, fui rever minha boiada; quando estava a admira-la, surgiu do nada, ou antes, do pasto contíguo ao que continha os meus animais, surgiu da remanescente manada, o bezerro, o tal bezerro manso que no dia anterior, apresentara comportamento insólito a nos surpreender. Ele, tal qual fizera antes, a passos lentos, se aproximou de mim, até ser barrado pela cerca que estava de permeio entre nós; bem a cômodo em suas quatro patas, ergueu levemente a cabeça, e disse-me:

– O senhor bem conhece o pai da sua afilhada. Acate as ponderações do meu senhor; e tudo se acomodará.

Fiquei estarrecido, quando não, faltou-me forças para me ver sobre o chão; ainda assim, notei aquele formidável animal metendo-se no meio de sua manada.

Imediatamente voltei à casa do meu cunhado, busquei repouso no meu quarto, com o desejo de encontrar, o quanto antes, discernimento suficiente para me livrar daquela desconcertante alucinação imposta pela minha própria razão que enferma haveria de estar.

Neste momento, por imposição deste texto, abro um primeiro parêntese, que ao se justificar, justificará um segundo, ou até outros, caso necessários sejam; vejamo-lo:

“A abrir parêntese, amiúde quebra-se o texto que julgamos carente de reparo; e ao fazê-lo, muita vez, subestima-se o raciocínio de outrem, ou remenda-se o nosso próprio que fora puído”; sob esse, e não sob aquele efeito, é feito aqui, por ser necessário, um remendo; entre estas letras, o faço pela primeira vez, mas, já o fizera antes em outros lugares;  e caso seja imperativo, para conservar o hábito velho, de novo, em algures, fá-lo-ei; pois bem, sem constrangimento, tolere este parêntese que se segue, pois o faço por minha conta, logo, logo, ou desde já, estou a remendar o meu próprio raciocínio que fora trincado.

 “Minha afilhada, dito já fora, hoje tem seis anos de idade; é uma menina linda, inteligente, meiga, com os pais é por demais carinhosa, mas, mais atenção e zelo dispensa ao seu pai; quanto a mim, trata-me com uma certa reverência um tanto reservada; por vez, dá-me sinais de uma repulsa velada.”

Voltemos ao meu lastimável estado:

Ao sair do meu quarto, visivelmente atordoado, causei indiscutível preocupação ao meu cunhado, que com atenção singular ouviu-me dizer:

Devo voltar imediatamente à cidade, dependo de uma avaliação médica, pois, não me sinto bem... Tão logo ouviu-me, o meu bondoso amigo se dispôs a me acompanhar; entretanto, por temor infundado, tal obséquio dispensei com toda veemência.

Quis, o quanto antes, procurar ajuda médica; menos por sorte, e mais por necessidade premente, a encontrei nas mãos e na paciência de um psiquiatra que se encontrava entre aqueles poucos colegas seus que de seus pares não dependem de amparo... A expor as minhas queixas – razão única daquela consulta – encontrei muita dificuldade...

Doutor! Um bezerro insinuou que sou eu o pai de uma...

– Se lhe ouvi bem, o senhor disse que o filho de uma... Insinuou que o senhor é pai de uma...

Sim doutor! O que já dissera haverá de ser suficiente para que o senhor firme algum diagnóstico sobre uma possível afecção que está a me atormentar!

– Não, não basta, pois, depois dessa sua afirmação, o senhor deve dizer mais, ademais, mais um pouco haverá de dizer, para eu constatar que de veras, fizera aquela afirmação, disse-me o doutor.

O tal bezerro ao afirmar, ou antes, ao insinuar que sou o verdadeiro pai de uma determinada criança, está a caluniar-me.

– Ouvi bem, agora tenho certeza! O senhor esteve a conversar com um bezerro? O filho de uma vaca?

Sim doutor, por mais estranho que possa parecer, trata-se mesmo dessa estúpida pessoa, entretanto, com ela, jamais conversei, apenas dela ouvi essa injúria.

– Dessa pessoa? Redarguiu o médico

Não! Não doutor! Não é isso que poderia dizer, o fiz por falta de atenção, ou por excesso de aflição, pois, trata-se apenas de um despudorado bezerro.

– O senhor disse excesso de aflição; assim, pergunto-lhe: – o senhor está aflito, exatamente, por que?

Doutor! Tenho que estar aflito, pois, não sei de onde essa pessoa, desculpe-me, esse bezerro tirou base para essa infundada calúnia; doutor! Estou mesmo muito aflito.

– O senhor crê que esteve a conversar com um bezerro.

Doutor! Já disse! Não conversei com ele, dele tão somente, ouvi a calúnia.

– O senhor nesse bezerro está a acreditar, pois, a creditar-lhe atributo próprio à pessoa está, logo, doente creio que se encontra. Note bem as minhas palavras seguintes, e em seguida, queira guardá-las e apreendê-las: a Esquizofrenia é um mal que não acomete bezerros, ao menos até onde sei, entretanto, tantas pessoas há que estão aflitas por conta desta grave enfermidade. Quanto ao senhor, se se vê enfermo, certo está a pensar, pensado, com efeito, quase está o seu mal, pois um dos sinais seguro que exclui a esquizofrenia, torna-se explícito quando o paciente que está a ser avaliado, admite que está enfermo, entretanto, se este atribuir esta enfermidade a outrem, ou, o faz, muita vez, ao próprio médico com o qual está a consultar, temos um indício forte a corroborar a sua própria doença. 

– E mais, alvitro-lhe sigilo absoluto sobre esse episódio.

Sim doutor! De bom grado, acatarei por inteiro, as suas recomendações, pois tenho dois motivos para fazê-lo de imediato.

– Dois motivos? Quero conhece-los, disse o médico.

Não me interprete mal doutor! Entre os dois motivos aos quais me referi, está a sua recomendação, o outro é a minha inocência que se funda na minha consciência.

– Pois bem, a pôr fim nesta consulta, digo-lhe:

– Pelo efeito de alguma substância estranha, o equilíbrio metabólico do seu cérebro fora rompido – creio que por tempo determinado – por consequência ainda mais estranha, o senhor se viu diante de um bezerro que a falar estava. Vá! Fique tranquilo, tome este medicamento por quinze dias, e retorne aqui.

Saí daquele consultório disposto a não mais pensar naquela grotesca alucinação. No dia seguinte liguei para meu querido compadre, dando-lhe notícias sobre a minha boa saúde e a disposição que tinha para buscar em breve os meus bezerros. Dois dias depois desse expediente, por telefone, disse-me meu o cunhado:

– Por descuido de um dos meus servidores, mais uma vez, teremos que dividir os bezerros, pois encontram-se todos arrebanhados em um mesmo pasto.

Mais uma vez, lá vamos meu amigo e eu a dividir bezerros em dois rebanhos distintos; para tanto não teríamos, nem mais nem menos trabalho, ou seja, haveríamos de formar um lote composto com os meus 800 animais e formado deixaríamos outro a conter os 700 animais restantes. Tudo a contento seria resolvido, não fosse o tal bezerro que tanto me afligiu, aparecer diante de mim, quando já recolhido às casas suas, estavam o meu cunhado e os seus peões; e isto se deu da seguinte maneira:

A sair do meio da boiada que haveria de permanecer na fazenda, o bendito animal, a passos lentos e habituais aos bovinos mansos, veio de encontro a mim; deteve-se bem ao alcance das minhas mãos, fletiu discretamente a cabeça, e quase como que a sussurrar disse-me:

– Acate as ponderações do meu senhor; pois, se assim o fizer, com segurança e tranquilidade poderá concluir: a narrar falso evento, é o vento quem tem mais a nos dizer...

Pela segunda vez para ser a última, horrorizadíssimo, me afastei daquele maldito bezerro, com a reta intenção de compra-lo juntamente com o meu rebanho, e tão logo, chegasse à minha fazenda, daria a ele um fim sumário e imediato; por assim pensar, imediatamente, disse ao meu cunhado, quero muito comprar aquele bezerro “mansinho”.

– Mansinho? Qual?

Aquele que se aproximou de nós enquanto estávamos a dividir o rebanho quando aqui estive há três semanas.

– Ah sim! Pode levá-lo; volte ao curral e junte-o aos seus animais, o quanto antes; assim procedi, ou antes, assim tentei fazê-lo, pois separar um bezerro de uma manada de 700 pares seus, sem que para tanto, nenhuma distinção física tenha esse animal que o identifique dos demais, é tarefa quase que impossível até de ser concebida; por esta certeza, fiquei indignado; de imediato voltei ao meu cunhado, e disse-lhe:

Deixemos os animais juntos, ficarei com todos.

Meu cunhado por tão sereno que sempre fora, disse-me:

– Faça como quiser.

Ótimo! Já no início do próximo mês, iniciarei o transporte de todo o meu rebanho, pois tenho alguns poucos reparos a fazer na divisão dos meus pastos.

Questão de quinze dias, a contar dessa nossa conversa, quando os dois últimos caminhões conduziriam o restante dos meus animais, meu cunhado procurou-me em pessoa, para me dizer:

– Modifiquemos o nosso negócio: que fique na minha fazenda meia dúzia dos bezerros dos quais lhe vendi, pois aquele bezerro, o mansinho, desde aquele dia em que se aproximou de nós com tanta serenidade, quando estou na fazenda, sempre que é possível, ao alcance dos meus olhos ele quer ficar; e quando lhe dou maior atenção, ele se aproxima bem ao alcance das minhas mãos, toca-me suavemente com o seu focinho, e o que é mais notável, fixando seu olhar em mim, suscita a absurda impressão que tem algo a me falar; por tudo isso, ainda seja em parte, fruto da minha fantasia, ficarei com esse animal na minha fazenda até que ele morra de alguma causa natural, e até que chegue este momento, haveremos de tê-lo entre nós – você e eu – como se parente fosse um nosso. Diante desse transe terrível e ameaçador, só tive força para fazer a seguinte interrogação ao meu cunhado:

E o que ele lhe contou?

– Contou? Contou o quê? Só entendo essa tua pergunta, se a fizeste, por excesso de amizade que sempre te dei, pois, se és tu culto, estulto não queres se tornar, ao crer que bezerros falam?

Não fosse o alívio que recebi com essa resposta, cindiria o meu próprio siso naquele instante; mas, para maior alento meu, minha piedosa e fresca memória, lembrou-me recordar destas palavras: “Acate as ponderações do meu senhor; pois, se assim o fizer, com segurança e tranquilidade poderá concluir: a narrar falso evento, é o vento quem tem mais a nos dizer...

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua leitura; se os seus olhos alcançarem mais textos meus, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei do seu olhar.