Sem ti, senti...

 

Se do meu desejo depender a expender algumas das minhas reminiscências, hei de contrariá-lo, entretanto, receio não demovê-lo deste intento, pois se sabe que as impressões calcadas em nossa mente, por feitio próprio, têm que ser indeléveis, logo, ficam arraigadas para sempre nos salões iluminados da nossa memória; a ser assim, amiúde, as más impressões que gostaríamos de esquecer para sempre, a aflorar nos torturam em forma de lembranças. Foi por estas razões que não pude comemorar hoje o meu quinquagésimo aniversário de ordenação sacerdotal, uma vez que há três dias, lembrou-me não me esquecer de um episódio que há bastantes anos fora incrustado na minha memória; isto, creio que fizera, antes com a reta intenção de desvestir-me do presente, para desnudar o meu pretérito, e em seguida, descobrir agasalhos que pudessem melhor me aquecer durante o meu porvir que por vir ainda estava necessariamente. A pensar melhor, devo suprimir, para maior segurança e não menor sensatez que devo ter, a palavra necessariamente que está logo após o “ainda está”, e em seguida, que ocupe o seu lugar a palavra naturalmente. Este introito se fez necessário para que pudesse com mais segurança, narrar aquele episódio, mas, ainda antes de fazê-lo, devo apoiá-lo nos seguintes e pequenos parágrafos:

A infância que tive à memória da criança que fui, caminhou com passos inseguros, logo, nos dias de hoje, a andar com as pernas bambas vítimas dos achaques da terceira idade, lembra-me apenas dizer: minha infância foi boa!

Quanto a minha adolescência, deixou na mente do jovem que fui, as suas indeléveis marcas, tanto que hoje, ainda as tenho vívidas na memória, a recordar os meus dias bem vividos entre alguns indevidos...

Quanto a minha idade adulta, por ter oferecido à alma que ainda a nutre, maus zelos, mazelas ao meu corpo tenho recebido...

Quanto aos meus dias de hoje, um após o outro, sem me descuidar de nenhum, tudo faço para vivê-los com desvelo, na esperança de chegar ao início do último entre todos, com tempo e lucidez suficientes para dizer: antes que o meu último instante se finde, findo minha vida com a consciência de que um tanto de si, não foi em vão...

Vamos à história:

Em julho, faria doze anos de idade quando em fevereiro daquele ano, ingressei no seminário; pensava ter vocação ao sacerdócio; pensava que com tal ministério envolto pelo mistério da fé, muitas almas salvaria em nome de Cristo; e creio, no decorrer de tantos anos, a concorrer para o bom êxito deste ofício,não deixei de fazê-lo com empenho e convicção constantes...

Meus primeiros anos de formação foram embaraçosos certamente, pois embaraçada fora a minha adolescência que mais estava a interrogar e menos se dispunha, ou antes, menos podia dar respostas... A ressalvar os tropeços próprios ao jovem seminarista, caminhei firme na fé. Recebi o sacramento da ordem sacerdotal quando contava os meus vinte e três anos de idade. Durante todo este tempo da minha formação - onze anos - poucas vezes, durante minhas férias escolares, deixei de passá-las na companhia dos meus pais e meus irmãos - estes mais jovens que eu - minha irmã nasceu dois anos depois que dera-me à luz minha mãe; já meu irmão, sobre este tempo, aguardou mais um ano e meio para vir ao mundo.

Meus pais com uma crença inabalável, professavam a fé católica, assim, com uma alegria incalculável, viam-me a distribuir o Pão da Vida aos deserdados pelas vias do pecado, com efeito, sob uma redoma de vidro protegiam-me das domas que o mundo secular nem sempre consegue nos impor. Sob este clima, um tanto convicto de que estava distante dos olhos do Céu, estendia os meus que mais a Terra pertencem até alcançarem o olhar de uma ou outra coleguinha da minha irmã, que vez ou outra, estava entre nós; entre elas, mais amiúde, ou até quase todos os dias, nos visitava uma meiga vizinha da nossa casa; esta menina sempre contava com o carinho de toda a minha família, exceto com o meu... ainda assim, durante todo esse tempo das minhas férias, muitas vezes eu a via, embora, tudo fazia para que ela não me visse, com efeito, com esta cautela, seus olhos verdes por nenhum motivo, dar-me-iam alguma esperança, se é que para tanto, em algum momento tiveram alguma inclinação... Esta jovem tinha a mesma idade da minha irmã, porém, creio, foi só durante a festa de treze anos desta minha irmã, ou antes, foi só quando não mais pude ignorar-lhe os encantos, que lhe dei por idade, mais dois ou três anos além dos meus quinze já vividos, visto que esta menina por mais precoce que fora, ou por menos paciência que tivera, quis logo saltar sobre os últimos anos da sua infância a alcançar os primeiros da sua adolescência, logo, por tal impertinente ato, com frequência, alguns pequenos embaraços denunciavam-lhe as pernas e os braços infantis, pois quase sempre, por falta de jeito, os trejeitos do coração adolescente denunciam estes inseguros membros.

A cada vez, que de férias, retornava à casa dos meus pais, no comportamento de Elisa − este era o nome da nossa meiga vizinha − nada de diferente via, ou ver diferente nada desejava, pois, meu sereno propósito levar-me-ia, sem nenhuma dúvida, à ordenação sacerdotal; e isto se deu no dia 13 de julho, há cinquenta anos. Este evento deu-se em dois tempos, durante o primeiro, minha fé cingiu-me ao Céu, em seguida, deste, a Terra cindiu-me, para por tempo limitado, adir-me aos seus filhos que desejavam me abraçar; com tão grande manifestação de carinho, maior alegria teria, entre tantos abraços que recebi, não fosse a seguinte reflexão que fizera:

Que tristeza tenho neste instante! Entre tantas pessoas ao meu lado, sem ti, senti a falta do mais terno abraço deste mundo, e até do outro, se há braços que tão longe podem alcançar... Falei de Elisa, ou antes, falei do seus braços que não me envolveram! O certo é que por motivo que não lhe fugiu às mãos, nem mesmo presente na festa ela estivera...

Depois de muitas comoções e não menos reflexões, poucos dias depois, cruzei o Atlântico. Deveria continuar a minha formação religiosa; para tanto, Sua Excelência Reverendíssima o Senhor bispo da minha diocese, tudo fez para que eu fizesse mestrado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Para lá fui, e de lá voltei, depois de seis anos ininterruptos envolvidos por estudo e trabalho; isto tudo não fora tempo suficiente para me deixar fora para sempre do meu Brasil, mas, foi o bastante para ter a seguinte certeza: quem à Itália vai, vaia Roma, se boca tiver...

Tão logo ao Brasil cheguei de volta, me vi às voltas com a Igreja Matriz da minha cidade, pois, sem aviso prévio, fora nomeado seu pároco. Pelos fiéis fui muito bem recebido, porém, sem experiência com a faina paroquial, um tanto inibido, assumi minhas funções. Isto se deu no início da Quaresma do ano de 1972; durante suas comemorações fiquei encantado pelo fervor dos meus paroquianos, mas, mais ficou marcado em minha memória durante este período de piedade, um incidente que me deixaria embaraçado para sempre, pois até nos dias de hoje, tenho dificuldade para interpretá-lo; Tal fato deu-se exatamente no dia 26 de março de 1972, logo após a Santa Missa do Domingo de Ramos; em seguida a este ato litúrgico, quando ainda estava a desvestir os paramentos litúrgicos, percebi que entre as pessoas que se encontravam na Sacristia a aguardar-me, uma jovem moça com olhar sereno instigava suavemente a minha atenção; não fosse julgá-la conhecida, nenhum sinal lhe daria que pudesse contemplar quaisquer intenções suas. Tão logo atendi aquelas pessoas, dirigiu-se a mim essa jovem; bem próxima ao meu alcance, não mais que a dois passos, a voltar seu olhar ao chão, fletiu discretamente a cabeça, em sinal de cumprimento, e disse-me:

− Padre! Peço-te perdão, pelo amor que não tive; quer neste instante, me atender!

Embaracei-me com tal pedido; tudo que fiz foi lhe interrogar:

A senhorita quer se confessar?

− Não! Não Padre! Tudo que desejo é que o senhor me perdoe.

Em seguida, afastou-se da minha presença, sem nada mais dizer.

Enlearam-me sobremaneira, estas sucintas e inusitadas palavras! Haveria de esquecê-las? Possível não fora mais, e menos ainda possível, foi apagar da minha memória, as feições daquela moça, o timbre da sua voz, e especialmente, o seu olhar... Assim, desta jovem, só conseguiria não mais recordar com dificuldade sem estremas, logo, com extrema facilidade, posso descrevê-la, e o faço agora nesta página, ou antes, nesta tela:

A moça que tanto me surpreendeu, bem poderia ser aquela que... Que não só um ponto final, mas sim três, mais força tenham para impedir que o verbo ser auxilie o seu par − o verbo poder − assim, ambos enfraquecidos, encerados no pretérito fiquem, e ao futuro não passem, uma vez que daqui não devo passar, pois para fazê-lo, daquela que aqui seria descrita, haveria de ter a permissão; receio não consegui-la! A ser assim, que continue apenas gravado em minha mente, tudo que dela poderia dizer fielmente...

Por desejo que faria sentido depois deste transe, tão logo pude, visitei meus pais; bem próximos da casa paroquial residiam eles; entre as falas habituais, quis saber sobre Elisa e seus pais. Minha mãe, mal dissimulou um certo desconforto ao meu pedido, ainda assim, por resposta, sugeriu que fôssemos visitá-los. Mal ouvira esta resposta, bem anuí ao convite, tanto que naquele mesmo dia, logo após o nosso jantar, se cruzássemos a nossa rua, seria suficiente para alcançarmos a casa deles; e assim o fizemos; quando lá chegamos, com grande surpresa e não menor estranheza, fomos mal recebido; minha mãe e eu constrangidos, de alguma forma, fomos forçados a adentrar à casa deles. Para uma visita fosca, não mais que uma dúzia de palavras pálidas, nos acomodaram à sala de estar; quando minha mãe e eu já de pé, inclinados às despedidas estávamos, sem esperar por resposta, ousei dizer estas três palavras:

Elisa está bem?

Arrastados segundos sufocaram um grande silêncio, daqueles silêncios que cedem as palavras à voz da morte...

− Padre, não posso dizer se ela está bem; muito mal, há 6 anos ela nos deixou, isto posso afirmar.

− Pensei que soubesse, continuou ele a dizer;

− Nove dias depois que senhor partiu à Roma, minha filha partiu desta vida; minha filha suicidou-se.

Sem qualquer reação a esperar por alguma expressão minha, a poucos passos afastou-se ele da nossa presença; ainda na mesma sala, alcançou um retrato que estava, entre outros de família, sobre um aparador. A aparar a dor que senti, não houve ninguém que pudesse fazê-lo, quando ele mostrou-me o retrato, e em seguida, mo entregou. Lá estava ela, ou antes, em minhas mãos, estava o retrato da moça com quem conversara há três dias...

 

  

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.

 

aqui!

 

Dispenso elogios, aceito remendos...

  

Este texto retrata o honesto desígnio do autor ao desejar se livrar da sua própria vaidade, entretanto, sua vontade, de desejo pouco está a passar, se não, ao nada o levará, pois, por força maior de outro vício seu, que menor não é, e por estar em conluio com a sua própria vaidade, quer daquele intento, desviá-lo.

 

 Por imoderado e essencial desejo que temos os homens de atrair admiração ou homenagens, sofrimento a menos do que mereço, tenho tido, logo, para sofrer ainda menos, menos presunçoso quero ser; sei que para não ficar apenas com esta vã presunção, devo dispensar elogios, ainda que os tenha por um bom adubo, pois bem sei que este pode dar vigor à planta em crescimento, contudo, a erva daninha chamada vaidade, muita vez, entremeada no plantio, desfrutando do mesmo trato cultural, poderá ter seu viço aumentado; então, a praga cedo se alastra, logo solta suas inflorescências, e não tarda em dar seus maus frutos; portanto, dispenso elogios; mas, por vez, tenho dúvida: talvez aquela erva invasora, aos poucos, fora me envolvendo em suas gavinhas, fazendo germinar em meu coração, o seu fruto legítimo, a falsa modéstia... A ser assim, dispenso elogios, mas, aceito remendos, contudo, os recebo com algum dissenso, visto que antes de serem aplicados, exige-se cautela, pois se o tecido que os compõe, for fraco, de início, repara-se o dano, mas em seguida, abre-se um grande roído, ao tentar tapar um pequeno puído.

 

PS - Fiquemos atentos! Muita vez, elogio não passa de um negócio reles do tipo − Pro amphora urceus − ou seja, “O pote pela ânfora” ou ainda, “Uma bilha de leite por uma bilha de azeite”.

 

 

A homossexualidade é uma enfermidade?*

 

“Estar de acordo com a norma é ser normal, é ser habitual, e, sobretudo, é por necessidade, ser natural”; portanto, por tanto que vale esse axioma, que acima está entre aspas, entre em acordo comigo, e note: não incorro as minhas palavras entre as dúvidas, e não peço socorro à audácia a afirmar:

“Todo e qualquer desvio do estado normal pode receber por sinônimo o termo enfermidade”.

Para que a premissa acima, que é imediatamente evidente, floresça nos áridos terrenos que fecundam a imaginação de algumas pessoas, adubá-la-ei com o seguinte preceito:

À pessoa hígida, a inclinação ao ato sexual haverá de se fazer presente, ao menos, em tempo e por tempo condizentes ao seu próprio período reprodutivo. Bem sabemos que é por excelência, o orgasmo o ardente desejo ensejado pelo próprio ato que o gerou – a relação sexual – que levará as pessoas à perpetuação da sua própria espécie. Também por ser do orgasmo o inerente desejo de se repetir, podemos concluir que esse efeito não haverá de ter por causa única, inicial e primária, a perpetuação da espécie portadora daquele mesmo desejo**. Diante desse período, não este que em curso está, mas o anterior a este, sem incorrer em nenhuma dúvida, também, e tão bem, posso afirmar:

Quando da composição de um casal, se a fêmea ou o macho, por qualquer impedimento orgânico***, não puder procriar, poderemos dizer: ela é doente, ou ele é doente, pois essa ou esse, não pode perpetuar a sua própria espécie!

Agora sim, vem a aspérrima, porém tempestiva indagação:

São sãos dois homossexuais que estão a formar um par de pessoas, quando afirmam: não podemos gerar filhos?

  

* - Para amenizar o impacto deste palavra – enfermidade – ou até para aniquilá-lo, deixo aqui a etimologia da palavra enfermo. Essa palavra vem do Latim, INFIRMUS, ou seja, IN + FIRMUS; que significa literalmente, NÃO FIRME; assim, bem a aplicamos quando dizemos: Uma pessoa enferma não tem a firmeza necessária para tratar de todos os aspectos de sua própria vida.

 

** - A ser a sexualidade humana um valor nobilíssimo e por estar intimamente ligado ao corpo que menor valor não haverá de ter, naturalmente, reconhece-se o seu caráter personalizante, e a sua função hedonista presentes entre as pessoas casadas, e entre os homossexuais, que cassado não podem ver o seu direito à uma legítima e reconhecida, e sobretudo, respeitada relação homoafetiva.

 

*** Causas de impedimento orgânico não inclui em seu próprio índice, apenas as causas objetivas, as palpáveis, ou seja, aquelas que se expressam através de sinais clínicos, mas, também as causas subjetivas, ou seja, aquelas que se revelam através de sintomas.

Para que fique aqui, um exemplo de causa orgânica, porém subjetiva, consideremos esta queixa, ou antes, esta afirmação:  

– Eu posso gerar filhos, mas, para tê-los, nada quero fazer, ou nada consigo fazer!

 

PS - Não se faz acepção de enfermos, mas, assepsia sobre o espaço que os envolve, muita vez, se faz necessária, pois as suas enfermidades podem causar danos a outrem...

  

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua leitura; se os seus olhos alcançarem mais textos meus, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei do seu olhar.

 

Um cofre sem segredo...


Desejei muito ter mais uma lembrança do meu finado avô! A este fim, por tanto insistir, deram-me o seu velho cofre; cofre sem o seu devido e necessário segredo, quando não, em segredo, fora este levado à sepultura, para que fora do alcance de outro ninguém, no antes do além-túmulo, não mais fosse encontrado...

Ainda que estivera a esperar pela entrega daquele grande presente, quando este chegou, encontrava-me ausente, logo, não pude recebê-lo, assim, mo entregaram sem o menor zelo, ou antes, com maior zelo para deixá-lo o mais próximo possível do seu lugar definitivo, deixaram-no bem à porta de entrada da minha casa; tanto assim o fizeram, que deveria eu, ou qualquer outra pessoa saltar sobre aquele presente a qualquer futuro alcançar no interior do meu próprio lar... Passados dois ou três dias após a dita entrega, quando com efeito, para recebê-lo, tive antes que arrostá-lo, notei logo, que a peça era mesmo pesada, contudo, dois homens dispostos ao trabalho árduo, a unir suas forças, poderiam removê-la com certa facilidade; se é que com facilidade, remove-se um paralelepípedo reto, feito de ferro, a pesar oitenta quilos, quando deste peso não passa, para maior pesar àqueles que deveriam arredá-lo de um lugar a outro; e a fazer tão grande esforço, com pequena força, não seria possível, pois, tão somente, poder-se-iam contar com apoio das mãos, ainda assim, desviando-as de uma ou outra farpa resultante da inexorável eversão do tempo que tudo corrói, até quando os ferros urgem ao vento a pedir que os livre da ferrugem...

Maior decepção tive com aquele ganho, quando soube que o tal cofre não tinha segredo, ou antes, ninguém entre os vivos, o conhecia; diante do peso e da inutilidade daquele maciço, pensei: ainda que eu revela a minha última gota de suor para revelar o segredo deste estorvo, não desistirei... E para começar, vou deixá-lo em seu devido lugar; e a esse intento, tanto fiz força que experimentei um severo desconforto respiratório, que se mais prolongado, teria encurtado a minha vida, não fosse a pronta interversão da minha esposa, quando, um tanto irritada, disse-me:

- Você não se emenda! Tantos pesos menores tem para remover em sua vida, e está a perder tempo com este, que pode até ceifá-la...

Interrompi o descomunal esforço e pensei:

Minha esposa de cinquenta e poucos quilos merece mais a minha atenção, se é que meu coração, para tanto, me dará tempo... 

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


O rolo de um rolo de papel


Passa de meio século que estou a usar papel higiênico! De início, por ser criança, logo quis assumir este hábito, pois, assim a agir, estaria a cumprir o papel de quaisquer meninos que boa educação hão de ter; por ter sido assim, nenhuma importância dera à cor cinza pálida daquele papel; nenhuma atenção dispensara a sua superfície lisa por ausência ou de baixos ou altos-relevos; nenhum incômodo trouxera-me a sua tessitura áspera pela presença de farpículas de lenho (se este vocábulo destacado em itálico, não há, não há importância, pois nos dias de hoje, não há papeis higiênicos com partículas maiores de celulose). A ser assim, de lá para cá, por imposição fisiológica, não me falta este hábito, uma vez que o meu hábito intestinal não é falho; por enquanto, não desistirei deste intento, mas, para poupar papel, muita vez, com vantagem, uso a boa água que de leve lava, e leva depois... De tanto depender dessa ou desse, que só asseio promovem, tenho uma límpida certeza: antes que finde este século, meus dias findarão, logo, fim darão a todo e qualquer papel que estava a minha disposição, e por falta d’água, não ressuscitarei...

Há poucos dias, livrei-me de um conflito que fora gerado há quarenta anos - logo no início do meu casamento - por um primeiro rolo de papel higiênico que deveria se dividir entre o novel casal que formávamos minha esposa e eu. E que arraigado e arrastado conflito foi este! E este se deu da seguinte maneira:

Minha esposa ao dispor do nosso primeiro rolo de papel higiênico para o nosso uso comum, entendeu de fixa-lo em seu porta papel dele, de tal maneira que a aba inicial da folha de papel que é o único componente daquele invento, deveria ficar sobre este; a ser assim, quando puxada e destacada, imporia sobre si mesma, uma vez que enrolada ainda estava, um movimento no sentido horário; melhor seria, se tal movimento fosse invertido, pois ao ser anti-horário, suscitaria maior estabilidade ao próprio rolo sobre o seu próprio eixo. Tão logo notei estas disposições, quais sejam, a do rolo em se envolver em faina tão árdua, e da minha esposa em assim mantê-lo, contestei, pois julguei - e o fiz corretamente - que a forma mais correta para se fixar um rolo de papel higiênico deveria propiciar a ele, um deslocamento no sentido anti-horário, quando estivesse este a se oferecer ao uso a que se destina. Tantas e tais ilações, conforme já dissera, ocorreram há quarenta anos. Daqueles distantes dias até aos atuais, se não houve acordo sobre a posição do tal papel higiênico em seu próprio porta papel, não houve maior constrangimento entre os seus usuários, contudo, entre todos os envolvidos, houve desassossego pois ora encontrava-se o dito papel em uma posição, ora em outra; mas, entre os dias mais recentes, houve um especial, em que assumi outro papel, ou antes, outra postura diante do bendito papel higiênico, tomei:

Em dado e inevitável momento, quando dele estava a depender, quis mais uma vez, muda-lo de posição; contudo, antes de fazê-lo, pensei: até quando me incomodará antes de me servir, este teimoso papel? Ocorreu-me a seguinte resposta, que de onde saíra mal soube dizer, pois bem sei que papel só se expressa por palavras impressas em si...

- Antes de me ocupar, não se ocupe com a minha posição, pois enquanto vida tiver a sua pertinaz esposa, em meu lugar, não terei paz!

Voltando-me ao rolo de papel higiênico, fiquei um tanto embaraçado ao conceber a seguinte réplica:

Haverá de ficar para sempre, na posição que a senhora do meu amor desejar!

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.