Eugene Gaon, de si, pode dizer:

 

 

Por dias inúmeros, já vivi a estender minhas mãos ao bem, mas, vez ou outra, com elas, alcancei o mau... Viver outro tanto, se desejasse, faltar-me-ia tempo para fazê-lo, assim, apesar dessa realidade, a pesar a real idade que tenho não estou, logo, ela não haverá de me incomodar, pois desistir de existir, não desejo, uma vez que sempre, hei de estar a ser ao Ser... 

Após iniciar meus primeiros passos, tão logo firmes ficaram minhas mãos, iniciei-me nas primeiras letras; de lá para cá, tenho lido, lido sempre; portanto, por tanto me envolver com as palavras, alguns segredos seus descobri.

− Segredos meus?

Não! Não os seus!

− Se meus não são, hão de ser de quem?

Delas, das palavras naturalmente! A ser assim, saiba: as palavras não nos traem, e trair não se deixam, logo, logo, ou em todo momento, tenha cuidado ao ler qualquer texto meu, pois, se fizer algum comentário, algum segredo seu revelado será...

Ao passar pelo tempo, tempo para ler encontrei, com efeito, conheci mais, mas, não menos ignorei... Ainda assim, fui ganhando força, ao perder ânimo para desprezar as letras; nessa faina continuei até cismar planos de escrever para alguém que possa cismar de ler o que escrevo; em consequência, alguns segredos meus, minhas letras hão revelar...

  

Eugene Gaon de Assis graduou-se em Medicina e Filosofia, logo, logo mais, ou a qualquer momento, a caminhar por essas ásperas sendas, de suas fendas, ao menos, com mais segurança, poderá se desviar... 

 

Apanhei alguns puxões de orelha...

  

Hoje, pelo que vi, lembrou-me de não esquecer do que vivi ontem, quando fora aluno das primeiras letras; naqueles dias, apanhei alguns puxões de orelha, talvez de dois a quatro, mais que meia dúzia, é quase certo que não foram; uma certeza tenho: sem depender do número de vezes, cada puxão por sua vez, valia por mais de um, pois distendia e torcia tão bem uma das orelhas – quase sempre a direita – uma vez que a destra, era a mão da minha professora, usada com destreza para adestrar bem os alunos ao saber, e ensiná-los a bem suportar o “se portar” bem... Esse castigo muito rápido, prático e ordinário, e não menos sinistro tinha o nobre ofício de endireitar pela orelha direita, a postura restante do corpo, inclusive a da mente; muita vez, por efeito imediato, não deixava a orelha indolor e pálida, e amiúde, não ficava sem escoriações... Ao aluno, só havia um jeito para tal desfeita não suportar, só portar-se bem...

A reprimenda, por ser efeito de uma premente causa, causava grande preocupação, e não menor vergonha para ser eficaz; fugaz era a vergonha, não tanto quanto a preocupação, pois essa se fazia acompanhada pela mudança de cor da orelha... com isso a preocupação persistia, e cresceria para abreviar as consequências, pois tudo que me preocupava, pelo temor racional transido e trazido pelo pudor natural, era esconder da minha mãe, por tempo indeterminado, o ocorrido, e o lado doído; e por mais que tentasse fazê-lo, de vez, a orelha traia-me; e por conta dessa traição, a pena haveria de ser dobrada, e na maioria das vezes, o era executada à custa de vara de marmelo.

Ah! E a professora? Bem! Creio que não só a minha, mas cada uma entre todas, e de todos os educandos, às mãos, levava unhas grandes e tingidas por esmalte vermelho; os alunos pensávamos que de outra cor não se pintavam as unhas das mestras; e para tal consideração, a justificativa era simples, qual seja pela indisciplina do aluno, por menos calma que ficasse a professora, mais carmim ficaria as suas unhas, pelo sangue da orelha do aluno rebelde. Assim, diante de nós, tão crianças, nossas mentes carentes de disciplina e entendimento, entendiam que unhas grandes e vermelhas tão somente se ocupavam com algumas orelhas, mas, poderiam alcançar quaisquer outras, caso fosse necessário; e quando necessário, a professora, que tia não era, ao aplicar o correctivo, dúvida nenhuma tinha, ou antes, nenhuma insegurança afrouxava-lhe a mão; logo após a correcção, que logo após a indisciplina, não tardava a chegar, tudo que a mestra queria era que à mãe do insubordinado, chegasse o informe do ocorrido, e que fosse sem demora. Com essa segura expectativa, outra preocupação não havia; maiores detalhes do fato, por ser ordinário, pouca importância tinha; tanto bastava que a mãe soubesse isto:

Seu filho foi indisciplinado, a professora puxou-lhe as orelhas.

Benditas professoras!

Benditos alunos!

Benditas mães!

Benditos filhos!

Todos são daquele bom tempo, que no passado ficou...

Malditas são algumas professoras!

E mais malditos são quase todos os alunos!

Malditas são algumas mães!

E mais malditos são quase todos os filhos!

Todos são deste mal tempo, que no presente está...

 

PS - Naqueles dias, há décadas, por aluno que fora, muita vez, minha boca estava por lavar, assim, levar algum puxão de orelha fora inevitável... Já nos dias de hoje, não só palavra direita profiro, porém, prefiro antes de fazê-lo, proteger direito a minha orelha direita...

  

Aqueles que têm ouvidos para entender essas palavras, são benditos; aqueles que não os têm, por desgraçados que são, deveriam ter as orelhas, sempre às mãos de quem pudesse puxá-las...

 

PS - Fico-te muito obrigado por leres esse ou aquele texto meu; se os teus olhos alcançarem algum outro, ainda que seja por acaso, caso a mais, farei do teu olhar.

 

Vai a idade para a vaidade...

 

Ainda que eu mantenha um ou outro pequeno vício aceso, acesso aos maiores já não tenho, pois para mim, já bem longe vai a idade para a vaidade, falsa amiga que tivera na juventude, me alcançar.

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua leitura; se os seus olhos alcançarem mais textos meus, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei do seu olhar.

 

Cada pessoa que há...

Cada pessoa que há, por estar a ser, ao passar pelo tempo que não há, mas há devir, vez por outra, vê-se angustiada. Nesses momentos, por tão desesperada que se encontra, entre tantos pontos iluminados à sua volta, volta, quase sempre, seus olhos aos pontos sem luz.

Assim, podemos concluir que no Universo há hapontosemluze.com.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


Passam por tais, quando dos portais da ética se desviam...

Penso muita vez: vez por vez, me torno pai de cachorros, pois como tais, trato meus filhos!

− Pai de cachorros?

Sim, de cachorros! Embora insólita seja essa afirmação, não a tomo por uma inconsequente digressão, pois bem sei que se meus filhos tentassem sê-lo, selariam uma grande frustração, pois, por maior desejo que tivessem a fazê-lo, naturalmente, não alcançariam êxito; mas, por estranho gáudio que possam ter, por traz de seus rostos humanos, que de máscaras lhes servem, vez ou outra, por cães, tentam passar.

Se sãos são os meus pensamentos, sã está a minha mente, logo, demente não estou; a ser assim, logo mais, ou até neste instante − o que melhor haverá de ser − ou ainda em qualquer tempo que brevemente haverá de chegar, hei de admitir que aos olhos de quase todas as pessoas, tão somente sob o jugo do extremado ócio, ósseo parágrafo − o que antes deste está − poderia ser concebido.

Por ter domínio sobre este espaço onde deito minhas letras, ou antes, onde as deixo de pé e à ordem, antes que outrem ninguém possa rosnar, justifico-me pelo que dito já fora:

Tenho três filhos, ou para ser mais explícito, e de explicações maiores me livrar, digo: gerei três semelhantes meus; eles são dos dias de hoje, ainda que concebidos foram há pouco mais de três décadas. Se eles − os meus filhos − não são do pretérito distante, quando não ignoram, desprezam o que só do passado poderia sustentar o presente; considerando que assim seja, e se família e sociedade andam juntas, ou antes, se antes de quaisquer bases à sociedade, funda-se a família, e ainda, se se desmantela esta por estarem suas bases ruídas, ruirá a sociedade do provir que por vir ainda está...

À semelhança dos sempre fieis cães, falemos mais às claras:

− Que é da sua bênção meu pai?

Pai pouco se ouve; houve tempo que mais se ouvia. Não se pede bênção − Deus lhe abençoe meu filho, com efeito, vê-se menos.

− Pai, o senhor...

Sumiu o senhor, desapareceu o papai; o pai está órfão, pois, se se perdeu esse pronome – senhor − até que adormeça no Senhor, não há quem o queira ressurreto.

− Pai, sê tá por fora há tempo; eu é que tô por dentro; dá um tempo!

Esqueceram-se, ou jamais souberam que “as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro*” que pelos filhos passamos, e poucos não foram, quase nos cindiram o juízo, portanto, se para entrar em um canil estou por fora, de fora dele quero ficar...

− Canil?

Reveja o título deste texto, e veja, ao menos, os dois últimos parágrafos do mesmo, que se sequem:

Em respeito aos meus filhos pouco mais direi, pois, muita vez, ao receber suas visitas, não mais que abanam os seus rabos para mim... Ainda assim, nesses momentos, ao me fazer presente entre eles, por tal saudação, lhes retribuo com o meu carinho, pois, não só lhes ofereço boa carne, naturalmente, desossada e não crua, a compor mesa farta, mas, mais fausta cama deixo-lhes à disposição, com efeito, apesar desse fiel zelo, que peso nenhum me traz, em situações semelhantes, contudo, não frequentes, meus rebentos a rosnar mostram-me os dentes, entrementes, não lhes jogo pedras, não lhes dou pontapés; tão somente, pé ante pé, saio logo de perto deles...

Merecem os incautos filhos, tratamento mais carinhoso que esse, que aos cães é dado, pelos prudentes pais humanos?

  

* − Da pena do meu queridíssimo amigo Cervantes, saíram estas referências ao meu amantíssimo “Cavaleiro da Triste Figura”.



PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.