A morte da boneca de pano

 

 

Vinte e cinco era o dia daquele mês; o mês era o último do ano, logo, estávamos a comemorar o dia em que um natal na tal manjedoura se dera... Nesse dia, já estávamos bem distante do início de uma longa jornada — toda feita sobre o lombo de animais de sela — e próximo de um merecido descanso, esperávamos estar também. Tão bem estava naquele momento, a nossa disposição física, que se necessário fosse, mais além, poderíamos meus amigos e eu – éramos quatro pessoas – estender os nossos passos antes daquele justo repouso. Naquele momento, passava das dez horas, quando a três ou quatro quilômetros de um pequeno povoado, alcançamos um rapazinho; estava a cavalo; marchava em sentido oposto ao nosso. Sua cavalgadura, por bem conhecer o caminho que de volta à sua casa poderia levá-la, e com a certeza de que ao pasto, brevemente voltaria, com pressa não haveria de estar, pois, a lentos e pesados passos, suportava o seu senhor que mal portava a sua própria e pesada dor... Ele — o rapazinho — de corpo largado sobre a sela, cabeça baixa, estava a arrastar pensamentos que elevam dores aos céus, em busca de alívio, pois, na terra, mitigá-las não havia quem pudesse fazê-lo... Assim, estava a chorar; contido em um peito partido, era um choro dos olhos tristes de quem as lágrimas lavaram os últimos vestígios da esperança de ver, em outro momento, o sorriso de alguém, que de repente, tão cedo partiu... Ao percebermos sua tristeza, a sua causa desejamos saber, logo, perguntamos-lhe:

— Moço!  O que te acontece?

O rapaz, acanhado pela sua própria natureza, mais ainda se acanhou pelas lágrimas; quando com a voz embaraçada pelo choro, assim nos respondeu:

— Hoje, ao amanhecer, perdi a minha irmãzinha; por conta disso, fui avisar minha avó que mora no povoado, agora, já estou de volta à casa dos meus pais.

Ao seu lado, continuamos a caminhar no mesmo sentido; não mais que a uma hora adiante, chegamos a um pequeno casebre à beira do caminho; à porta da pequenina casa, já estavam algumas poucas pessoas; desoladas, lá estavam para se despedir da pequenina morta...

Naquele lugar, se não tínhamos plano para dos nossos animais nos apear, a pear nossos movimentos estava a desocupada curiosidade, quando não, para se fazer sempre presente e disposta estava a própria solidariedade, que sempre se posta para interromper a marcha do sofrimento... Sofrimento que a cavalgar a sua besta alada, não se esbarra no tempo, e do espaço, nenhum caso faz, pois em qualquer mísero casebre, que queira entregar a dor, não hesita em lá se acomodar com todo o seu furor...

Adentramo-nos na pequena casa; tratava-se de uma construção rústica e frágil toda coberta por folhas de Buriti*, que se apoiavam sobre varões roliços de alguma madeira do próprio lugar; essa pobre moradia tinha por piso, o chão batido circundado por paredes de Pau a pique, ásperas e mal aprumadas, foram barreadas com tabatinga**; já ao passarmos pela porta da frente, demos à pequenina sala onde jazia um pequeno corpo de uma criança que já estava a ser velada; frágil criança fora! Não mais que doze anos de idade tivera, mas, mais de oito, ninguém lhe daria... Em uma das paredes desse cômodo, fora fixada uma imagem de São Vicente de Paulo estampada em papel e emoldurada em um tosco caixilho de madeira; do seu lado oposto, também presa à parede, encontrava-se uma folhinha – daquelas, das quais se retira uma pequenina página a cada dia – nesta sequência, uma página após a outra, depois de indicar o dia que se findou, dá à próxima, a vez para estampar em si, o novo que iniciou. Em um dos cantos desse pequeno cômodo, sobre uma forquilha apoiava-se um pote de barro, e nesse pote inseria-se uma torneira gasta ou mal ajustada, pois ia perdendo, gota a gota, a água que à vida dá sustento. Ao centro da sala, sobre uma mesa forrada com um pano branco um tanto encardido, inerte e estendido, estava o corpo de uma pequena criança; ao lado da sua cabecinha, duas tristes velas se esvaecendo entre o cheiro de flores mortas, iluminavam a face pálida  daquela defuntinha; seu cabelo bem ralinho emoldurava o seu descorado rostinho que deixava em maior destaque, o seu narizinho descarnado; seus olhos sem brilho, quase que sumidos estavam; sua boquinha murcha, mais acentuava um tênue filete de sangue coagulado, entre os seus lábios semiabertos. Nesse rosto, de um anjinho sem vida, a morte expressava um sorriso cruel... Escassas flores, já quase murchas, colhidas naquele mesmo sítio castigado pela seca, pouco escondiam o seu vestidinho de chita estampado de motivo miúdo que cobria-lhe o corpinho mudo; as mãozinhas secas, cruzadas sobre o peito, seguravam uma pequena boneca de pano.

Em frente daqueles dois corpinhos inanimados, fiquei, por alguns instantes, a olhar; com os olhos em lágrimas, pensei: que papai-noel é este, incapaz de saber que a morte não se move a rogos, assim, de presente nada poderia dar a esta criança, ainda que fosse uma simples boneca de pano, pois aquela pouco tempo de vida pode ter, agora morta, estava abraçada com essa que nem mesmo chegou a viver na imaginação de uma pobre menina.

Naquela sala, todos choravam; tudo chorava! São Vicente, com uma criança nos braços, segurava outra pela mão, e ainda, velava por outra, que agora morta, despedia-se da terra, e partia para o céu. O pote, no compasso das horas, gota a gota, ia chorando suas lágrimas de água doce. Os irmãozinhos, inconformados, choravam pela irmãzinha que partira, e pelo sofrimento da mãe que era de partir o coração. O pai, de corpo largado sobre a terra, desanimado, mal estava a sustentar a cabeça erguida, que nenhum pensamento revelava; tão somente, elevava aos céus, os seus ferimentos, em busca de cura, pois, tantas vezes antes, o fizera, sem que nenhuma ferida fosse-lhe pensada; e agora, mais que antes, por nada receber e menos esperar, não mais chorava, pois, em seu peito cansado de tanta desventura, mais uma vez, uma perda secara as suas lágrimas, roubando-lhe a última esperança de ver, em algum outro momento, o sorriso de uma criança que pouco tempo teve para ser a sua filha.

Partimos! Pesadas reflexões nos acompanharam, para trás, o luto e a miséria de mãos dadas ficaram...

 

* Palmeira (Mauritia vinífera) cujas folhas são usadas para cobertura de casas rústicas, especialmente, no meio rural; ainda, dos seus frutos se obtém óleo rico em caroteno, usado também na culinária doméstica.

 

** Terra composta por argila de variegadas cores; fora e ainda é usada para pintar paredes das residências mais humildes, sobretudo, na zona rural.

Palavras vis

 

Atende ao ouvido

Se vis palavras ouvis

Lançai-as ao olvido

 

 

 

Eu escrevo mau?

 

Por desejar tão somente esta resposta:

— Sim, você escreve muito bem! Não há muitos dias, lembrou-me fazer àquelas pessoas que dizem estar a viver bem no mundo dos homens, e no das letras afirmam se sentir à vontade, a seguinte pergunta:

   

Eu escrevo mau?

 

Respostas divergentes houve, e houveram, apoiadas em palavras evasivas; com efeito, fui perdendo a graça ao ouvi-las, uma a uma, pois houve algumas que me deixaram muito embaraçado, logo, nenhuma me trouxe alento; por ter sido assim, não consegui dissimular o meu desapontamento diante daquelas pessoas; então para encontrar algum alento, a mim — para quem não deixo de inclinar olhos complacentes — fiz a mesma pergunta, ou antes, depois de uma pausa à reflexão, fiz a seguinte indagação, que “mais bem” apropriada seria para ensejar respostas melhores e desejadas:

 

Eu escrevo bem?

 

Para tal questão houve esta resposta:

— Às vezes, ou para melhor dizer, muita vez o fazes por excesso de confiança nas letras, ou por não distinguires bem o perfume da última Flor do Lácio...

Depois desse confuso alento, mais atento, de contínuo, continuo a deixar no papel, entre letras e outros signos, as pegadas dos meus erros, contudo, por conhecer as minhas limitações, para suportá-las, a duras penas, da pena não desisto...

Naturalmente, não gostaria de escrever mal, logo, logo, ou o quanto antes, para evitar este mal, o já escrito, revejo; e por tantas vezes, o faço, que depois fazê-lo, por vezes, apesar de tanto rever depois de escrever, reescrevo mal; mas esta consciência tenho:  por todas as vias, todavia, não passou as minhas revisões, mas, ao fazê-las, tanto fiz bem, que mal não reescrevi, com efeito feito, para que ficar mais bem escrito, deixei no lugar do mau o mal...

Mal ou bem continuo escrevendo, embora saiba: aqueles que bem me leem me bendizem menos, e mais me criticam, e até, com maior frequência, desprezam os meus escritos; entretanto, entre tantos que mal me leem, a maldizer-me menos, há mais... Mas, daqueles e desses, por escrever, ou até por simplesmente querer criticar, recebo críticas várias; entre essas, poucas me trazem algum incômodo, contudo, entre essas, há pouquíssimas que, sobremaneira, me incomodam, quais sejam, as construtivas, pois, por minha deficiência, não consigo entendê-las como tais...

Nessa situação, só de falar ou de me lembrar das minhas eivas, eivo-me mais, pois ao tentar me esquecer daquelas críticas — as tais pouquíssimas — mais escrevo mal, pois repito palavras palavras, ou até, troco suas eltras; portanto, por tanto ser rica e grande a língua de Portugal, com muita dificuldade, a deito no papel, e não com menor esforço, a mantenho de pé, nesta tela, deixando-a, quase sempre, órfã daqueles seus adjetivos...  

Pelo dito acima, posso dizer o que abaixo, haverá de ficar:

Algumas pessoas me criticam, pelos meus textos; outras, sem nenhuma pena, os desprezam; poucas, quando não, pouquíssimas apoiam a minha faina ao me envolver com as letras. Isso eu sei, por que sei, que de outrem, amiúde, desprezo os escritos. Se tenho liberdade para aceitar ou desprezar os escritos de outro escritor, não poderiam quaisquer leitores de igual forma, tratar os meus escritos? Sim, poderiam! Mas, não poderiam me criticar, pois, criticar, bem sei que bom efeito não traz; assim penso! Entretanto, nem sempre — embora não devesse fazê-lo em tempo algum — não consigo cultivar os meus próprios preceitos, pois, ainda que vez ou outra o faço, algum tanto, critico o trabalho alheio; porém, não com menor zelo, muito tenho me empenhado para não mais fazê-lo.

O ideal é que não houve críticas, ainda assim, devo desprezar o escritor mau?

— Sim, e às pressas.

E com os escritos dele, o que devo fazer?

— Hei de desprezá-los sempre; uma vez que, o mau por se opor ao bom, o bem jamais urdirá, com efeito, mal feito sempre fará.

Devo acolher sempre o escritor bom?

— Nem sempre; nem mesmo por gratidão, ainda que grande fora o favor recebido, pois, não por deliberada maldade, boa obra poderá não conceber.

E quanto à obra do mau escritor?

— Antes de julgá-la, note bem! Algo de bom poderá escrever o mau escritor.

E quanto à obra do bom escritor?

— Toma tento! Algo de ruim poderá ela encerrar.

Quanto a mim, julgaram-me bem nascido, tanto é verdade que sob a sua própria luz, o próprio Sol, assistiu, sem poder se eximir, darem-me à luz, e em seguida, deram-me Eugene por nome próprio. Por ser verdade, devo repetir a contragosto: fui bem nascido, mas, mal criado fui, e por essa falha, sou malcriado, e mau criado seria, se me tomasse por servo, algum imprudente senhor, logo, logo, ou em qualquer tempo, não terei dúvida: nem sempre escrevo bem; mal não desejo fazê-lo, com efeito, entre os meus escritos, há sempre quem despreze um ou outro, ou interesse tem até para mais de um.

Vê bem! Se houver dúvidas entre aqueles que têm bons olhos para ler o que estou a dizer por escrito, proscrito deixem este texto, pois, o escrever bem ou mal, não está apenas, sob as minhas rédeas, mas, tenho sob o meu jugo, o querer, e até para o meu próprio bem, escritor mau, não quero ser; logo, ou desde antes, penso: se por ser mau escritor, for esquecido, esquecer a desfeita tentarei, mas, ainda que não seja muito afeito aos gerúndios e às rimas, a escrever continuarei, com a esperança de que jamais, um escritor mau serei.

  

Há eltras trocadas

 

  

Há eltras trocadas!

Talvez, as veja, de vez,

Muito deslocadas...

 

 

Se meu cão não é doente, do ente humano nada herdou...

 

Se em qualquer tempo, o meu cão não me entedia, entendia-me mal no passado, o ente humano; já no presente, se esse, do que falo, nada aprende, apreende todos os meus comandos aquele. 

 

Ao invés de urdir algum projeto vulgar, quando se dispõe de algum tempo vago, vagar por uma praça pública será mais fácil, e não menos seguro, assim, se nesse espaço, se se deparar alguém com um grupamento de pessoas que está a se envolver com alguma pessoa a falar, dificilmente, menos por curiosidade, e mais pelo tempo de sobra que se tem, não se inclinará àquela pequena multidão curiosa. Foi isso que se deu comigo, logo, logo, ou até agora, você verá a cena que vi! E verá que para vê-la, tive tempo, e o tenho para descrevê-la:

Em um determinado dia, que não só no passado haveria de ficar esquecido, as minhas pernas estavam sem quase nada a fazer, e os meus olhos não mais ocupados se encontravam; nesse dia, ao cruzar uma praça, bem vi mais ou menos cem pessoas, aglomeradas em forma de uma circunferência de paredes espessas, envolvidas com um homem e as suas afirmações dele.

Antes de ouvi-las — essas afirmações — vejamos: o dito homem que não se encontrava só, assim se caracterizava: era magro, de estatura mediana à alta; a nuance morena da sua pele se aproximava de uma cor cúprica; seus cabelos lisos e pesados, se destacavam por uma cor negra e metálica, que se não fosse natural, o era à custa de algum bom recurso artesanal; seus dentes como que luzes, muito chamavam a atenção, pois os seus incisivos mediais superiores tanto se afastavam entre si, que poderiam admitir um terceiro dente de permeio. Já disse: não estava só, pois fazia-se acompanhado por um cão e uma senhora, a quem sempre se referia dizendo: essa é a minha mãe, e esse é o meu sócio e amigo! Esse cão, ao seu dono, era excepcional, porém aos olhos de outrem, poderia não sê-lo, uma vez que não passava de um cão comum de porte mediano; sua cor preta destacava-se, quando visto de perfil esquerdo, pois duas malhas brancas e bem definidas manchavam-lhe o corpo, já quando visto de perfil direito, três outras manchas também brancas, contudo bem extensas, quase o cobria por inteiro, dando-lhe a aparência de um cão branco malhado de negro; por tão singular combinação de cores — ainda que apenas duas, a preta e a branca — esse único cão, na dependência do olhar daquele que o observava, se não passasse por dois animais, valeria bem mais que um... Entretanto, além de sua cor ímpar, muito mais as suas orelhas justificavam a grande estima que lhe devotava o dono, pois bem se destacavam, quando eretas estavam, uma vez que, ambas, independentes entre si, executavam quase que imperceptíveis movimentos, que muito, ou até mais, poderiam dizer ao seu dono, sobre o que dizem os cães...

Agora sim! Vamos às palavras do homem consumidor de letras, ou seja, as suas afirmações:

— Depois de muito tempo, convivendo com este meu amigo — este cão que vocês veem à minha direita — passei a me entender tão bem com ele, que sei muito bem compreender tudo o que ele fala; tão bem nos compreendemos, que instituímos entre nós, uma sólida parceria no seguinte negócio:

Por distração, ou por desobediência à ordem dos parágrafos que devem se submeter à ordem das ideias, só agora, lembrou-me mostrar com mais zelo, àquele que julga ser importante a descrição do cenário ocupado pelos nossos principais personagens, quais sejam o homem que falará mais, ou antes, falará sempre e muito, seu cão, e sua mãe, não a do cão... A ser assim, continuemos:

Já foi dito, no centro de uma praça pública, havia uma compacta circunferência formada por muitas pessoas curiosas, e em seu centro — o dessa circunferência — estava um homem que se não falava para viver, nascera para falar; dispondo de um pequeno assento de três pés e sem encosto, sentava-se à uma pequena mesa de metal; seu cão, à sua direita, no chão, como que de cócoras, permanecia; sua mãe — não a do cão — sobre um confortável cadeira de encosto, também, tão bem, se acomodava, à esquerda do seu filho. Sobre a mesa havia um notebook, e duas pequenas caixas de papelão; uma delas encerrava uma razoável quantidade de pequeninos aparelhos eletrônicos à semelhança de Modem; já a outra caixa encontrava-se  abarrotadas de Pen Drives; notavam-se também sobre essa mesa, várias folhas de papel almaço pautado, ao lado de um grande molho de lápis, e ainda, bem ao alcance das mãos do homem falante, e encostado no notebook, destacava-se uma pequenina e delicada caixa de madeira contendo um conjunto de nove apitos de tamanhos variados, confeccionados em marfim, segundo informações do seu usuário — o homem das muitas palavras.

E continuou o homem que muito dizia àquelas pessoas que o o ouviam:

 — Se há aqui, alguma pessoa que tenha algum cão, e tenha interesse em saber o que se passa pela sua cabeça dele, aproxime-se desta mesa, tome uma folha de papel, e deixe grafadas nela as perguntas que desejaria fazer ao seu fiel amigo; entretanto, antes que o faça, acate duas advertências que lhes faço, quais sejam evite perguntas constrangedoras, a menos que não se incomode com respostas do mesmo quilate; e não façam mais que meia dúzia de interrogações, para tanto, use apenas uma das faces da lauda disposta a cada um de vocês.  Neste momento, cão e dono, trocaram longo olhar... Por conta desse ato, vai abaixo um parêntesis que me parece indispensável:

“Os olhares trocados entre um e outro — entre o senhor e o seu servo — eram singulares; a falar diferente, afirmo que os seus olhares eram gêmeos univitelinos; assim os olhares entre eles divididos, se davam para explorar as nuances sutis que havia nos trejeitos faciais de ambos; era uma interlocução silenciosa, florida, luminosa; quem de perto a via, havia de senti-la até perfumada...”

E continuou o grande loquaz:

— A continuar o nosso trabalho, tão logo tenha em mãos as suas perguntas, de forma muito sigilosa, e não menos técnica, vou repassá-las ao meu sócio; para tanto, assim hei de proceder: usarei meus apitos que só emitem sons de alta frequência, portanto, não são audíveis aos humanos, para fazer as devidas combinações sonoras atinentes com cada uma das palavras que compõem as perguntas que ao seu cão serão enviadas,  simultaneamente, o meu amável amigo decodificará todos esses sons à sua língua natural, ou antes, à linguagem canina; logo em seguida, ele, evidentemente, dispondo da linguagem da sua própria espécie, emitirá as palavras correspondentes exatamente àquelas perguntas, que serão gravadas em um Pen Drive; feito isso, por sua vez, o autor das ditas perguntas receberá esse Pen Drive juntamente com um outro Pen Drive virgem; ao chegar em sua casa, no momento oportuno, ele — o interessado às perguntas e as suas respectivas respostas — haverá de “tocar” o Pen Drive gravado ao seu cão, para que ele possa ouvir o seu conteúdo; durante essa operação, você, proprietário do cão interrogado, haverá de ficar muito atento, pois tão logo ele ouça a última pergunta, moverá levemente a sua própria calda à sua direita dele; com tal ato, estará a indicar o tempo exato e suficiente de dois minutos para que você tome o Pen Drive virgem, e o insira em seu Notebook, quando então, sob um comando específico e adequado, processar-se-á a gravação das respostas correspondentes àquelas indagações, e mais, para que esse processo se complete, o período de gravação será de trinta minutos, tempo suficiente para conter o áudio que lhe interessa. Oh! por pouco me esqueço de dizer: para que se processe a gravação daquelas respostas, o Pen Drive virgem deverá ser inserido nesta entrada USB própria a este pequenino receptor de sons de alta frequência, que ora lhes apresento; feito isso, todo este conjunto, através deste cabo, deverá ser conectado ao seu Notebook, o que se dará também através de um porta de entrada USB.

Nesse momento, a cuidar do seu interesse mais imediato, mudou o foco da sua oração o nosso grande falaz:

— Para que eu, por tempo indeterminado, possa manter essa sublime interação entre as pessoas e os seus fiéis amigos, naturalmente, dependo de recursos financeiros, logo, sem nenhum constrangimento, pois falo por uma causa justa, digo que preço de cada Pen Drive não poderá ficar abaixo de cinquenta dólares, pois trata-se de aparelho único e de uso específico para tão nobilíssimo fim; já o valor do Modem, ou seja, o valor do receptor de sons de alta frequência emitidos pelos cães, tem o preço fixo e bem defino de cento e vinte dólares, contudo, esse valor ficará em depósito caução sob a minha inabalável garantia, pois após usá-lo, aquele que o devolver intacto, terá prontamente, os seus cento e vinte dólares restituídos; preenchidas essas razoáveis e necessárias condições, já no mesmo dia, ou no dia seguinte, ou ainda, em algum outro momento que melhor lhe aprouver, você, venturosa pessoa que se envolveu com essa fantástica operação, novamente deverá comparecer à minha presença, quando então, de posse do Pen Drive gravado com as respostas do seu cão, as entregarei ao meu amigo, que por sua vez, tendo-as em mente, mas repassará através da sua linguagem auricular, a qual bem compreendo; logo em seguida, as revelarei em sigilo hermético, ou em público, conforme a vontade, daquele que por direito deve recebê-las. 

A fala escorreita e segura, quiçá rebuscada, do nosso empresário falante, quebrava a insegurança, não a minha, mas a de toda aquela plateia ingênua e ávida para se envolver naquele extraordinário fenômeno; fenômeno já corroborado por várias pessoas, diziam essas, e dizia mais ainda o próprio empresário. Tanto era verdade, ou, poderia sê-lo, que formadas estavam duas longas filas; uma se ocupava na compra dos tais Pen Drives e o Modem, a outra, se compunha de pessoas que de volta àquele lugar, estavam ansiosas para ver reveladas as respostas dos seus cães.

Enquanto tudo isso se passava, a senhora — a mãe do homem de negócio — se limitava em saciar duas bocas, uma delas, por não ser pequena, e grande fome canina conter, se empanturrava de moedas correntes, já a outra, a do cão, menos esfomeada, se contentava com alguns grãos de ração de boa qualidade, dados em intervalos regulares de tempo.

Por tantos curiosos que lá havia, interessados em tão formidável espetáculo, a curiosidade contaminou-me conduzindo-me àquele mercado de ilusões. Tomei uma das folhas de papel, e grafei estas minhas perguntas — não mais que cinco — que seriam feitas ao cão que mais à minha esposa pertencia:

Qual a data do seu nascimento?

Quantos irmãos tinha você ao nascer?

Aos seis meses de idade quase morreu, qual fora a causa a esse fato?

O que pensa sobre a sua senhora?

O que tem a falar sobre aquele que lhe sustenta há anos?      

De posse da minha lauda preenchida, dirigi-me ao sagaz e senhor das letras, lha entreguei, e aguardei que ele fizesse a transcrição das minhas interrogações à fala dos cachorros, que se deu da seguinte forma: o astuto senhor, sobre a mesa e bem à sua frente, dispôs em ordem crescente da sua esquerda à sua direita os seus nove apitos; voltou-se ao seu cão que muito atento já estava, e em seguida, com o olhar sobre a página, tomando de um ou de outro dos seus apitos, executou uma suposta sequência compassada de distintos e surdos assobios; ainda que nada ninguém ouvisse, o cão como que tudo estivesse a compreender, variava sutilmente, a postura das suas próprias orelhas,  à medida que ouvia aquela série de imperceptíveis silvos. Finda a pantomima, paguei e peguei os dois Pen Drives e o Modem; de lá, saí às pressas, sentindo-me constrangido por me envolver em uma comédia bufa, e ainda, dispor de duzentos e vinte dólares para me tornar coadjuvante do seu bufão...

Antes de lá voltar com as respostas gravadas que dera-me o meu  cão, gravado deixo aqui a minha intenção ao me submeter àquela grotesca farsa: pensei comigo: compro os tais Pen Drives, levo sob caução o tal Modem, executo as orientações que me foram dadas, e volto amanhã, já pela manhã, e desmascaro esse impostor contumaz, diante deste povo incapaz de perceber este ardil astucioso.

A interação entre o falsário e o seu fiel amigo, já disse antes, bem levava o incauto a crer que presenciava não uma falácia, mas sim, que se tornara testemunha ocular de um prodigioso diálogo entre duas criaturas distintas e de espécies diferentes entre si, ou seja, o diálogo entre uma pessoa e um animal irracional, não obstante, ambos gozassem de um entendimento racional.

De volta à casa, cheguei ansioso para contar tudo à minha esposa; e para minha surpresa, ao fazê-lo, ela não se mostrou muito incrédula, tanto foi assim, que cheguei a pensar: ela está a dissimular a sua própria opinião, ou está a ser ingênua não menos que qualquer pessoa que lá estava! E ainda mais pensei: talvez tenha a minha esposa notícias daquele fraudador, pois ao meu relato, pouca importância dera, e muito empenhada se mostrou, ao se dispor a me acompanhar, não no dia seguinte, mas, no próximo imediato a esse, quando então, veríamos o grande empresário que mente à fé jurada.

No dia seguinte, logo pela manhã, dispus aquele Pen Drive ao nosso cão, para que ele pudesse ouvir as perguntas que só a ele seriam remetidas; simultaneamente ao início desse expediente, me causaram admiração os movimentos silentes, ainda que sutis, das suas orelhas — as do nosso cão ao ser interrogado — se é que o fora! E mais, por instantes, fiquei atônito, quando envolvido por um curto silêncio que não fora quebrado, vi a calda daquele que bem poderia ser o meu fiel amigo, discretamente se movimentar à sua direita, tal qual previra aquele tartufo; logo em seguida, como que estivesse a aguçar todos os seus sentidos, não por mais que dez minutos, emitiu uma sequência, aparentemente desordenada, de suaves ganidos, ou seja, suaves gritos lamentosos...

Durante aquelas indagações, nada ouvi que pudesse o meu cão escutar, contudo, por saber que há frequências sonoras tão agudas, que quase só os agudíssimos ouvidos caninos podem alcançar, não pude contestar o silêncio, com efeito, sem poder duvidar de alguma certeza, só pude concluir, ou antes, só pude interrogar isto: se esse animal, pôs algum sentido nas minhas palavras, é da lavra canina esse porte grave, quando se está face a face com semelhante lance?

De imediato, busquei pela minha esposa, e narrei-lhe essa embaraçosa ocorrência; ela, dispondo do seu carinho habitual, voltou-se à minha narrativa com toda atenção, para em seguida, limitar-se em me dizer:

— Penso que o meu querido e fiel amigo, por mais ativo que seja, não chega a tanto, a ponto de ouvir e compreender quaisquer relatos seus, portanto, tanto crédito não dê às suas ilações — não as dele — pois se dele fossem, creio que seriam mais racionais... Oh! querido, estou a me divertir com você...

E eu estou um tanto confuso e aborrecido com as suas considerações! Respondi-lhe, e continuei: para que você se convença de que esse sucesso se deu, na sua presença, e neste momento, irei repeti-lo. E assim o fiz, ou antes, tentei fazê-lo, pois do início ao fim da “interrogação”, se o tal fiel amigo da minha esposa prestou ouvido ao ouvido, nenhum sinal deu, antes permaneceu tão quedo, que pensei: falta-lhe energia física, ou energia elétrica não há ao meu Notebook... mas também fiz esta conjectura: com o gravado, agravado não ficou esse estúpido animal, pois caso contrário, ao menos, menos comedido seria...

E mais disse-me a minha esposa:

— Vejo que sua narrativa descrevendo esse episódio, é sem dúvida infundada, dada a apatia do nosso amigo aos sons que não ouviu, e às reações que não vi, logo, não mais se aflija com esse leve evento; o vento haverá de levá-lo logo, você verá! Fique tranquilo, ao menos até amanhã, quando então você e eu voltaremos à praça, para compor o grande circo que lá estará armado. Foi assim que minha esposa e eu — eu ainda um tanto constrangido — ela bem à vontade, não no dia seguinte, mas no seguinte a esse, nos dirigimos à tal praça, com a intenção de entregar as respostas do nosso cão ao empresário que das palavras muito abusava, e não menos dos seus ouvintes.

Tão logo lá chegamos, dirigi-me àquele que falava até aos cães, e disse-lhe:  

Dê a mim e a todos que aqui estamos, as minhas respostas, ou antes, as respostas do meu cão; entretanto, não as quero por escrito — esta era prática daquele mercador de ilusões, entregá-las grafadas no verso da mesma página usada para anotar as perguntas — e continuei:

Queira em alto e bom som, proclamá-las, pois da mesma forma, vou contestá-las todas, desfazendo de vez, esta sua farsa.

O homem, ignorando-me, ou nenhuma importância dando ao que dissera, pôs o Pen Drive à disposição dos ouvidos do seu sócio; tão logo, o ouviu, muito atento, deu as suas respostas, para tanto, se expressou através de sutis e coordenados movimentos de orelhas — movimentos próprios de quaisquer cães, que por bem adestrados que estejam, bem atenderiam ao comando dos seus donos — Após interpretar tal sequência de movimentos, quis ele — o dono do cão — à minha esposa consultar, para tanto, antes consultou-a apenas com os olhos. Ao perceber o seu intento, o instei a que revelasse logo as respostas; e o fiz com esta sequência imperiosa de palavras:

Ande com isso, vamos às respostas, e haverá de ser agora!

O empresário sem muito mudar o seu semblante, tentou me dissuadir do meu propósito, ao dizer-me:

— Tenha a seguinte certeza: meu cão, diferente dos humanos, me entende, e não me entedia; com a desnecessária atenção que lhe dispenso, meu tempo estou a gastar e a agastar-me está o senhor com as suas palavras impertinentes, contudo, ainda insisto: seja comedido! Queira recebê-las, as suas respostas, por escrito.

Seja comedido o senhor! Pare de iludir este povo de boa-fé; já lhe disse, ande logo, revele o farsante que é você!

Sem mais palavras que pudessem me demover da minha única expectativa, atendeu-me, ao dizer:

— Primeira resposta:  

— Nasci no dia doze de maio de 2008, portanto, no próximo mês, completarei dez anos de idade.

— Segunda resposta:

— Minha mãe quando me deu à luz, pariu uma ninhada de seis filhotes; um nasceu morto; é possível que eu tenha mais três irmãos, pois um, sei que tenho, por ser meu vizinho de porta.

— Terceira resposta:

— Por descuido seu, ou por ato deliberado, o que mais provável fora, atropelou-me com o seu carro, quebrou-me a pata dianteira esquerda, por pouco morri!

— Quarta resposta:

— A minha querida dona, dona Elvira é a minha verdadeira mãe; a ela, hei de devotar sempre carinho e amizade! Por ser casada com o senhor, só não digo que ela leva uma vida de cachorro, para não depor contra a boa vida que leva alguns dos meus semelhantes...

— Quinta resposta:

— O senhor é aquele que não só há anos me sustenta, sustenta também um relacionamento adúltero com a senhorita Elisa — a prima de dona Elvira — por se passar por sua fiel amiga dela, é sempre acolhida em seu lar com carinho; essa é aquela que só não chamo de cadela, para não depreciar a minha própria espécie, mas, os considero — o senhor e ela — um casal de vira-latas; e digo-lhe mais: saiba que o senhor sendo infiel à minha fiel amiga, faz um grande mal para todos nós da casa, mas, saiba também, em nossa companhia, os seus dias estão contados ...

Fiquei atemorizado, quando não aterrorizadíssimo; todas as pessoas que ali se encontravam, me olharam; a olhar limitei apenas à minha esposa, que agora sim, olhava-me inteiramente incrédula, ainda assim, tive força ou audácia para lhe dizer:

Nem sei como sair daqui, muito menos, desta situação.

Assim, ela respondeu-me:

— Saia com o rabo entre as pernas, mas, não queira se acomodar em nenhum canil, pois lá não há lugar à gente do seu jaez...